nova era de leão

Vivemos no século XXI entre dois grupos: nacional-tradicionalistas de cá e popular-globalistas de lá. Ambos soi-disant uma “nova ordem” – mas, no fundo, ambos neoconservadores. Assim parece seguir nossa desinteligência contemporânea, em direção a uma nova Era de Leão: egocêntrica, orgulhosa, autocentrada e arrogante – seja como Eu Universal, seja como Outro Universal, muitas vezes como um “Eu sou o Outro Universal”. Os escafandristas do sonho se esqueceram de cogitar que, se Leão é a sombra de Aquário, haveria probabilidade igual de decairmos nessa fossa de soberba e vaidade, impedindo-nos de enxergar além de uma velha e empoeirada juba. Aquário é o signo da Fraternidade Universal, mas os indícios imediatos é que entramos na era dos Grupelhos Universais, reproduzindo expressões, frases, imagens e estereótipos sobre “si mesmos” e sobre os “outros” tão mais estúpidas quanto mais disseminadas. Desconheço se conseguiremos, como humanidade, viver independentes dos ultrapassados leões que ainda desejam reinar em pequenos pedaços de terra, mas sei que a Era conhecida como de Leão é geralmente relacionada pelo gnosticismo ao Velho Testamento, com seu deus autoritário e vingativo, sua lei soberana, seu pai carente de provas de submissão. Cortemos já a juba dos leões com nossos pentáculos.

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fim, triste fim

Minha geração talvez tenha sido a última a crescer completamente fora da revolução tecnocultural proporcionada pela bolha da internet, tendo mergulhado nela com toda a inocência utópica de quem não teve utopias com as quais lutar quando mais jovem. Acreditou que aquilo seria realmente uma revolução. Se nisso acertou de certo modo, o fez com a mesma ingenuidade de todas as crenças secularizadas.Hoje vive entre o burnout profissional que adveio do incremento tecnológico e o colaboracionismo de quem lucra com a expansão da tecnovigilância, geralmente com o argumento velhaco de democratização. O fato é que as lutas não mudaram, apenas os instrumentos de dominação e contradomínio. Vergonhoso fim de uma geração que hoje luta para sobreviver e fazer-se importante em um mundo que vai em breve transformá-la em mais um resíduo eliminável.

 

o trabalho que faço

O trabalho que faço é dividido em partes: 1) o trabalho propriamente dito é dar aulas, orientar pesquisas de alun*s de pós-graduação, participar de reuniões e administrar algum setor (comissões temporárias ou permanentes, colegiado, congregação, pós-graduação, departamento, etc.); 2) a pesquisa é a formalização de um campo largo o suficiente para caber atividades diversas (aulas, orientações, grupos de pesquisa e estudos, networks, congressos, palestras, escritos, este blogue, etc.), mas com unidade justificada por um caminho imaginário chamado “método”; 3) a escrita é tornar público um pouco disso tudo e outras coisas (alguns chamam isso “divulgação”).

Acontece que essas “outras coisas” são o que mais me interessa na escrita e estão ligadas ao que penso, leio e escrevo, não ao que pesquiso (sintomático é a academia estar menos interessada em leitura, criação e pensamento e mais em pesquisa formal-quantitativa: Fábio A. Durão chama isso de “burrice acadêmico-literária brasileira”), malgrado interesse pouco à academia, que toma o ato de escrever apenas como transmissão e divulgação informativa, logo descartável, e pontuação competitivo-neoliberal. Por isso, digamos que meu desejo tem se tornado aos poucos fazer da escrita um ato ligado a mim mesmo e não ao trabalho, por mais que ele próprio me propicie isso – e talvez justamente porque propicia.

O CV Lattes é o lugar onde tudo isso é empilhado quantitativa, não qualitativamente.

mate um político por dia!

Sintomático a ascensão da esquerda ao poder em 2003 ter trocado muitas máscaras de lugar, a ponto de quando veio a hora de afirmar sua posição original, elas não quererem mais ficar no rosto, caindo no chão. Quem afinal representa a institucionalidade política? Quem representa uma mudança real que nunca veio? Tudo muito confuso (ou não) para quem tem menos de 40 anos. Resta apenas a evidência de que os tempos se tornaram mesmo reativos e que o diagnóstico de Giorgio Agamben de a democracia ter como núcleo oculto um estado de exceção não começou no Brasil anteontem, mas nos governa desde a redemocratização. As instituições partidárias e os poderes da república nos governam soberanamente – eles, imperadores; nós, vassalos – para na verdade nos impedir de conquistar um grão de liberdade. Hoje, preza-se mais a palavra “democracia” do que “liberdade”.

Daí que amigos compuseram e gravaram uma música movida ao mais secreto desejo de uma população pacata, e me pediram para escrever algo que impedisse de ser mal interpretado, em tempos de censuras à direita e à esquerda em nome de autoverdades de gosto duvidoso. O vídeo foi censurado naquela rede social ‘fake’, por denúncia, mas aqui vai de novo, com meu texto de abertura.

aforismos

O que significa deixar sua marca em uma sociedade na qual marcas são criadas e descartadas à velocidade de um piscar de olhos e com a aparência de uma explosão de confetes? Significa marcar os que com você agenciam encontros afetivos, dedicados às intensidades infraleves da amizade e do amor, marcar os que se encontra sem outro fim além do próprio encontro. Significa não emular marcas sociais de violência institucional – com seus dispositivos legais, morais e tecnológicos – nesses encontros ao longo do dia e da vida, tornando as vidas mais singulares e verdadeiramente livres dos sacramentos e sacrifícios impostos pela vida pública. Quando o espaço público avança irrestrito sobre o privado – trocar pequenos segredos, criar jargões que se autodestroem e são esquecidos, expressar-se como uma criança que brinca – isso é resistir afetivamente, deixando uma marca de vida.

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A estética foi anestesiada pela gigantesca nuvem informativa que penetra nossos corações e mentes. E apenas pela interrupção discursiva podemos resistir a essa sobrevivência anestesiada; apenas um ato de criação é capaz de interromper o fluxo informativo; apenas por um ato de puro ócio da linguagem. A estética hoje só vale se ela for um resto de infância, uma absoluta brincadeira, diversão inoperativa e sem qualquer finalidade pedagógica. Somente aí ela pode se afastar do controle da vida sensível e se encontrar com uma verdadeira vitalidade política. A oferta e procura de diversão e entretenimento na cultura contemporânea, por outro lado, tornou-se sintoma de uma crescente carência de brincadeiras afetivas. O hedonismo hoje é vendido e comprado justamente pela impossibilidade de se vivê-lo direta e espontaneamente. Desde cedo, somos comprados por uma lógica perversa que nos sequestra o jogo como forma-de-vida e a forma-de-vida como jogo. Nossos gestos passaram a ser mediados e qualquer ação direta é velozmente julgada irresponsável e inconsequente. Mas é aí, e somente aí, que começamos realmente a viver esteticamente a existência.

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Toda afirmação na cultura contemporânea se dá a partir de uma negação primeira. Por isso, um pouco de negatividade no reino dessa pseudopositividade sempre gera um mal-estar, um medo de desordem na idealização a ser afirmada. Mas a negação de uma negação nunca é uma verdadeira negação, mas uma libertação, uma vida livre da moral e dos bons costumes, entre o prazer e a dor de uma pura vida afetiva. E isso assusta os viciados em poder.

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É preciso aprender a morrer para se poder viver. Não há outra forma de devir junto ao incessante fluir de noites e dias. Tudo o que quer nascer para a vida precisa aprender a morrer. O tempo e os livros são nossos grandes mestres nesse assunto. Mas as sociedades humanas, medusadas que são pela vida eterna, adulta e soberana, com uma ilusão de autonomia futura e consciência – recusam-se milenarmente a encarar a morte com a sabedoria que dela nasce, e com isso vivem em permanente estado de sobrevivência e esperança, as mesmas de quando se espera Deus – nesta ou noutra vida, pelo próprio ou outro de seus muitos nomes. Este é o caso do Brasil.