a questão dos fins: zoopoética e biopolítica

DEPOIS DE IDAS E VINDAS, O RESUMO DO NOVO PROJETO:

O objetivo geral da pesquisa é intervir na tópica contemporânea sobre a questão dos fins, através do estudo da zoopoética e da biopolítica. A primeira se dá no bojo da discussão sobre amimalidades nos limiares da humanidade e da técnica; a segunda se dá pela crescente sujeição a dispositivos tecnoeconômicos de poder e controle das vidas e das obras para fins de produtividade. Daí ser hipótese do projeto que o limiar zoopoético da linguagem expressa a suspensão de um destino (e fim) humano e antropocêntrico, caraterizado pelo produtivismo da vida no trabalho. Para conduzir essa pesquisa, toma-se, por um lado, a noção de “meios sem fim”, de Giorgio Agamben, para quem há uma “conspiração teológica sobre a linguagem”, quando se coloca a linguagem como meio para obtenção de um fim, destino ou realização de algum sentido ontoteológico oculto no linguístico e no político. Por outro lado, toma-se também o neologismo “destinerrância”, de Jacques Derrida, para pesquisar a desconstrução do fim enquanto destino e verdade de toda escrita poética, quando lida por algum destinatário eventual que a reendereça de sua pretendida finalidade, tornando-a estrangeira a/em qualquer leitura. A partir desses pontos, pretende-se empreender um mapeamento de obras de língua portuguesa nas quais eles possam ser desenvolvidos.

PALAVRAS-CHAVE: A Questão dos Fins; Zoopoética; Biopolítica; Literatura Comparada; Teoria da Literatura; Pensamento Pós-Crítico.

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o fim do livro (reloaded)

Um último poema não nos livra

de livros que sabemos não ter fim.

Aprendemos assim que a nossa vida

começa justamente por aí.

 

Um último poema nunca trata

nada nem ninguém pelo nome próprio.

Sem salvar ou condenar, ele traça

o desenho de um círculo aleatório.

 

Seu gesto é vagaroso e com receio

do caminho que há entre vida e morte.

Um último poema é como o espelho

suspenso sobre o chão que a grama cobre.

 

Chave que nada abre e nada fecha,

um último poema é sempre o meio.

Diante de todo o mundo, apenas resta,

sendo seu destino vagar a esmo.

 

 

ilegível

Falo do que não existe
em nome do que não tem nome
que só por isso resiste
em mundo que se consome

Escrevo pelos que não leem
por isso não sei dizer
o que vai escrito nem
o que aqui poderia ser

Sei apenas o que erra
em minha língua estrangeira
que como eu não tem terra
identidade ou bandeira

e não sonha com abrigo
que gramático lhe dê
É clandestino o que digo
diretamente a você

que me lê sem entender
o que é nosso na bonita
aventura de saber
que a escrita é infinita.

animais, imagens, humanos

Li que animais não ligam para imagens quando percebem tratarem-se apenas disso: imagens. Meus gatos, quando mais novos, se arrepiavam diante do espelho, assim como ficavam sempre alguns segundos diante da TV, observando o que se passava ali. Mas logo se entediavam com elas, as imagens, e percebiam que aquilo diante do que estavam eram o espelho e a tela, respectivamente – não o que ali ocorria. Eram apenas vidros. Então por que nós, humanos, gastamos tanto tempo diante dessas superfícies virtuais? Que tipo de potência esses vidros possuem? São os bichos ainda que me ajudam a entender um pouco dessa fascinação, pois sua atenção parece estar voltada totalmente para a realidade presente, para aquilo que se atualiza a todo instante. Nós, ao contrário, nos embevecemos com o invisível, o imaterial, o ausente, o virtual. E tornamo-nos também, nós mesmos, ausentes, criando metafísicas, teologias, teorias e exercícios lógicos que explicam justo o que não está presente, mas faz sentido. O humano prefere o sentido ao sentir, o explicado ao experimentado, saber pelo raciocínio a saber pela vivência. As imagens são modos que criamos para saber do mundo. E se isso vale para o mundo, vale sobretudo para nós mesmos. Sabemos muito bem o nome dessas imagens do pensamento que o homem constrói sobre si: humanismo. E se hoje as tecnologias da comunicação proliferam ao redor das telas e suas imagens, podemos dizer que isso só radicaliza o antropocêntrico que entende o pensamento como o conhecemos, isto é, como central para organizar a existência e o mundo. Mas, enquanto pensamos por imagens, continuamos nos esquecendo de viver. Como os animais.

 

microafetos

para wlad cazé

Entre o tato e o texto,
tudo vive. Insetos levam
a mão por caminhos
que desconheço.

Esta mão folha-seca
abriga formigas entre
os dedos, escaravelhos
pelos artelhos.

Esta mão tronco-d’água
leva larvas de lagartas
pelas palmas e grilos
pelas as unhas.

Esta mão barro-úmido
escava poços arteriais
como o salto de um
sapo papa-moscas.

Esta mão galho-torto
coça a cabeça pensa
no abismo
branco da página.

pormenor oculto no abaporu

A mão apoia a cabeça
miúda, de olhos pendidos,
o nosso olhar sequestrado
para o cacto, sem espinhos,
e o silêncio da paisagem
pintam sua casa com a cor
de que é feito o corpanzil
incapaz de alguma paz.
Com um ar assexuado,
o corpo esconde a nudez
atrás da perna disforme,
mas o ângulo por que é visto
desnuda a sua solidão.

teoria da lírica (programa 2018.2)

CURSO

POÉTICAS E POLÍTICAS DE VIDA E OBRA: POESIA E BIOPOLÍTICA.

 Pretende-se investigar os conceitos de “vida” e “obra” em chave biopolítica – tal como pensada por Giorgio Agamben, atualizando o pensamento de W. Benjamin, H. Arendt, G. Deleuze e M. Foucault – através da forma de linguagem “poema”. Valendo-se de certas poéticas e poetas, Agamben busca a potência política da vida nos limites da sua própria impotência diante da lógica de produtividade tecnoeconômica. Ele também articula o conceito kojeveano-blanchotiano de désoeuvrement (inoperatividade) como ociosidade da obra e suspensão de toda atividade produtivista que confunda trabalho com obra e, por extensão, inoperatividade da vida que produz a obra enquanto trabalho. Por isso também se quer ao longo do curso pensar o conceito de inoperatividade da linguagem, articulando-o à “vida” e à “obra” através de poemas (“inoperatividade da língua”, segundo Agamben) pertencentes a diversos poetas, tais como Fernando Pessoa, Antonin Artaud, Paul Celan, Luiza Neto Jorge, Herberto Helder, Manoel de Barros, Ricardo Corona, Manuel de Freitas e Stéphane Mallarmé.

METODOLOGIA

Dinâmica das aulas

  • Primeira parte com aula expositiva do professor
  • Segunda parte com perguntas, questões, comentários e debate com *s alun+s

Avaliações

  • 80%: UM ENSAIO (entre 09 e 15 páginas, tratando dos sujeitos literários de estudos e de suas desativações de “vida e obra”) A SER ENTREGUE NO ÚTIMO DIA DE AULA.
  • 20% PONTUALIDADE, PRESENÇA E PARTICIPAÇÃO COM LEITURA DOS TEXTOS.

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO

  1. PROFANAR A LITERATURA
  2. POEMA COMO INOPERATIVIDADE DA VIDA
    • Biopolítica e criação: Agamben e Deleuze, Celan e Corona.
    • Sobre/vivência: vida póstuma (Manuel de Freitas) e vida animal (Luiza Neto Jorge, Herberto Helder e Manoel de Barros).
    • Vida como dessubjetivação: Pessoa e Helder.
  3. POEMA COMO INOPERATIVIDADE DA OBRA
    • Arqueologias da obra: Arendt e Agamben
    • “Morte” e “retorno” da obra-como-linguagem: Barthes e Durão
    • O fim da obra: livro (Mallarmé), arquivo (Pessoa), loucura (Artaud).