animais, imagens, humanos

Li que animais não ligam para imagens quando percebem tratarem-se apenas disso: imagens. Meus gatos, quando mais novos, se arrepiavam diante do espelho, assim como ficavam sempre alguns segundos diante da TV, observando o que se passava ali. Mas logo se entediavam com elas, as imagens, e percebiam que aquilo diante do que estavam eram o espelho e a tela, respectivamente – não o que ali ocorria. Eram apenas vidros. Então por que nós, humanos, gastamos tanto tempo diante dessas superfícies virtuais? Que tipo de potência esses vidros possuem? São os bichos ainda que me ajudam a entender um pouco dessa fascinação, pois sua atenção parece estar voltada totalmente para a realidade presente, para aquilo que se atualiza a todo instante. Nós, ao contrário, nos embevecemos com o invisível, o imaterial, o ausente, o virtual. E tornamo-nos também, nós mesmos, ausentes, criando metafísicas, teologias, teorias e exercícios lógicos que explicam justo o que não está presente, mas faz sentido. O humano prefere o sentido ao sentir, o explicado ao experimentado, saber pelo raciocínio a saber pela vivência. As imagens são modos que criamos para saber do mundo. E se isso vale para o mundo, vale sobretudo para nós mesmos. Sabemos muito bem o nome dessas imagens do pensamento que o homem constrói sobre si: humanismo. E se hoje as tecnologias da comunicação proliferam ao redor das telas e suas imagens, podemos dizer que isso só radicaliza o antropocêntrico que entende o pensamento como o conhecemos, isto é, como central para organizar a existência e o mundo. Mas, enquanto pensamos por imagens, continuamos nos esquecendo de viver. Como os animais.

 

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