dois grandes hotéis abismo

Um bom exercício para pensar questões do nosso tempo é ler dois livros com o mesmo título: Grande Hotel Abismo. Ambos tentam entender o que foi/é a famosa e influenciadora Escola de Frankfurt, criada no entre-guerras, criadora da Teoria Crítica e alçada a fonte de influência sobre todo o campo das humanidades no século XX e XXI.

Nomes como Walter Benjamin, Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas e, sua mais nova estrela teórica, Axel Honneth estão intimamente ligados ela, até mesmo por terem sido recusados em suas teses, como Benjamin.

Dos dois livros, posso dizer que o primeiro, do filósofo brasileiro Vladimir Safatle, é uma tese de Livre-Docência universitária que tenta reconstruir o percurso teórico que na Escola acabou por gerar a Teoria do Reconhecimento, hoje nas mãos de Honneth. Já o segundo, escrito pelo jornalista britânico Stuart Jeffries, tem sido fartamente resenhado pela imprensa e é uma reportagem recheada por anedotas, fofocas e reduções explicativas das complicadíssimas teorias ali elaboradas.

É onde quero chegar: se o livro do filósofo Safatle trata teoricamente as teorias da Escola de Frankfurt, o livro do jornalista Jeffries trata jornalisticamente essas mesmas teorias. E essa diferença, se explicita as diferenças desses dois lugares – Crítica Cultural Universitária e Crítica Cultural Jornalística – também explicita a diferenças entre o pensamento universitário – que tenta imaginar (mesmo que de forma complicada e cheia de fraturas e invencionices) saídas para uma vida crescentemente claustrofóbica – e o senso comum – que acha que mudanças devem ser ocorrer apenas dentro de parâmetros já conhecidos. Falta ao jornalismo cultural sair do (ou imaginar um fora ao) mundo-como-conhecemos que ele mesmo critica, sob o risco de ao fim e ao cabo tornar-se uma crítica que gira em falso. O irônico é que muito do pensamento universitário, na sua sede de “falar para fora da academia” e não ser acusado de “elitista” em tempos de “comunicação massificada”, acabou também por parar de pensar um lado de fora e uma saída.

Essa para mim é – apesar de todas as críticas – a grande lição das teorias críticas da Escola de Frankfurt.

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