tempo de autocrítica

Num momento em que a universidade brasileira cerra fileiras contra críticos de toda ordem (escola sem partidos, mbl, evangélicos, policia e poder judiciário), um exercício de autocrítica sem dúvida é perigosíssimo. Mas o que farei diz menos respeito a essas pautas toscas e conservadoras, menos respeito a uma hipotética “função social da universidade”, e mais respeito a uma radicalização daquilo que a universidade tem de mais característicos, e que não se confunde com nada: a potência para pensar.

Nascida no seio da Igreja medieval, há uma tradição em se considerar a Universidade como local um de pensamento conservador. Nela, domestica-se acontecimentos através de formações discursivas, analisa-se verticalmente gestos superficiais, governa-se uma natureza ingovernável, cria-se leis para ordenar o mundo e os homens, etc. Em suma, a Universidade (ainda) é uma instituição e instrumento do poder soberano da Igreja, do Estado e cada vez mais do seu atual avatar – o Mercado.

Daí que não acho estranho ver acadêmicos defendendo poderes constituídos agora ou anteriormente. O que me causa enfado intelectual é perceber que se lança mão de todo um jargão baseado em pensadores intempestivos, críticos e marginalizados no ambiente universitário, quando não a ele exteriores, dele expulsos ou críticos: Espinosa, Marx, Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Oswald, Benjamin, Bataille, Warburg, Wittgenstein, Sartre, Fanon, Abdias do Nascimento, Lacan, Cioran, Davi Kopenawa, etc. para ratificar a gorda saúde dominante da universidade. Pois bem, a universidade é voraz em domesticar ideias que nasceram contra ela e contra sua compulsão em conservar poder. A literatura e a arte explodem em exemplos de sujeitos marginais que depois de mortos tornaram-se santos padroeiros de viúvos e viúvas universitários (dois exemplos atuais são Lima Barreto e Hilda Hilst, último e próxima homenageados da FLIP).

Talvez seja um processo inevitável, mas é engraçado como ouço a universidade erigir-se em um lugar de resistência que – ao fim e ao cabo – não deixo de perceber ser resistência institucionalizada e “pret-à-porter”. Ou seja: tudo mudou desde a Idade Média, sem nada mudar. É como aquelas propagandas da Coca-Cola, da Calvin Klein ou de qualquer outra marca multinacional que se vale de imagens estereotipadas de rebeldia para se capitalizar.

Agora vejo intelectuais admirados e críticos pagando para validar Home Pages pessoais no academia.edu e ter acesso (bem como tornar público) ao números de citações e impacto dos seus artigos. Ou seja: críticos até a segunda página, pois no fundo (que no final das contas nem é tão fundo assim), restam estrelas no celebrity system acadêmico nacional e internacional.

Eu me pergunto onde estaria o nó do problema? E só me ocorre que na falta de um pensamento verdadeiramente livre. Quase tudo o que vejo por aí – salvo raríssimas exceções – é reprodução, não produção, de conhecimento aprisionado em fórmulas. E reprodução, sabemos, é a lógica do capital que já tomou conta da produção industrial de signos, artigos, livros, orientandos, alunos, reformas curriculares e estruturas departamentais etc. E tudo contraditoriamente só se reforçou com as redes. A sanha pelo poder-saber de reprodução revela só o jargão muda de tempos em tempos. Ou talvez nem ele.

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