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Paradoxo performativo. É impressionante como hoje tantos vivem na armadilha de se autonomear artistas, performers, escritores e poetas, fazendo disso uma autoimagem e profissão pública. Por mais que realmente escrevam, o limite da performatividade está em que ela precisa de um público e audiência, que não é apenas auditório real ou potencial, mas é o verdadeiro nomeador do gesto – arte, poesia, literatura. Confundir autonomeação pública com acreditar em si revela – freudianamente – algo de um medo com uma possível insuficiência – quando não descrença – no gesto performativo de si própria, seus gestos criativos. Performance para si mesmo e enunciada aos quatro ventos não é performance, mas é o que mais se encontra em tempos de “empresários de si mesmo” – “Você s/a”. Acreditar com as entranhas no que se faz é completamente diferente de nomear suas entranhas – não basta dizer que são suas entranhas, é preciso serem realmente suas entranhas. Esse é o mistério que separa obra-de-arte de trabalho-artístico. A performatividade não pode ser mera nomeação. Tem que corresponder a um gesto de força equivalente que se transfere para a obra e ganha nela vida própria. Por isso o adjetivo mais esfarrapado nos últimos anos na academia e nas redes sociais “activistas” é potente. Nomear algo como “potente” hoje em dia é despotencializá-lo na hora, principalmente se “potente” for uma (auto)nomeação. Por isso, a estratégia de se viver sem ser capturado na malha de dispositivos do poder de exposição e espetacularização canibal talvez seja afirmar o gesto silencioso e discreto, como uma impotência que guarda em si a potência – como um segredo incomunicável, de difícil enunciação, pessoal e intransferível. Sem qualquer valor público.

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É TEMPO DE DESTITUIR PODERES, SEJAM POLÍTICOS, JURÍDICOS, EDUCACIONAIS, ARTÍSTICOS OU RELIGIOSOS. O REI ESTÁ NU E O TRONO, VAZIO. NÃO EXISTEM GRUPOS, RAÇAS, RELIGIÕES, ARTISTAS, PARTIDOS MAIS JUSTOS, HONESTOS OU MERECEDORES DE NADA. É TUDO UMA GRANDE FARSA. A VIDA É UMA TRAGÉDIA REBAIXADA, ANTICLÍMAX. NADA PERMANECE DE PÉ. QUEM DIZ O CONTRÁRIO ESTÁ APEGADO A FANTASMAS, GENTE MORTA. SÃO DISCURSOS TEOLÓGICO-POLÍTICOS. CRIE E LIVRE-SE DO QUE CRIOU. ISSO É O QUE IMPORTA. CAMINHAR PARA O QUE OS OLHOS NÃO VEEM NO HORIZONTE. É PARA LÁ QUE SE DEVE IR. NÃO OLHAR PARA TRÁS, NÃO SER CAPTURADO PELA MEMÓRIA DOS MORTOS. DESAPROPRIE-SE DE SI MESMO. TORNE-SE LEVE COMO O VENTO. ESVAZIE OS BOLSOS E VÁ SEM RESISTIR NEM DESISTIR, POIS RESISTÊNCIA É DESISTÊNCIA DA VIDA E CHAMAMENTO DO PASSADO E DA MORTE.

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Algo que une todos os fodidos deste país e ao mesmo tempo a sua verdadeira inteligência é ambos estarem fora da Universidade – e ignorarem-na peremptoriamente. Quem, fora, reclama dela é a saudosa direita das tradições ou quem quer entrar e criar sua própria tradição.

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A escola é uma instituição do século xix, que continuou no xx e acabará no xxi, substituída pelas redes sociais.

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Professor é uma profissão conservadora hoje no Brasil. Por isso os conservadores estão investindo tudo nela. Falta muito mesmo para ser aquilo que os professores repetem: revolucionária, perigosa, esclarecedora, criativa, etc.

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Uma geração que chama texto de duas laudas de “textão” está se in-formando sem ler livros, mas só com informação de 2a. mão, sem pensar. Não estranho as fakenews terem prosperado tanto à esquerda e à direita. Daí confundirem hoje tão facilmente informação com conhecimento.

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