desenganos (in progress)

Desespero zumbi. A sociedade contemporânea é desesperada, histérica e desesperada. Se a esperança e o futuro são os dispositivos de controle mais poderosos da atualidade, seu efeito é uma violenta sensação de incapacidade em obtê-los e a geração de uma quantidade enorme de zumbis do desejo.

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Regra e exceção. Se a democracia é entendida como o objetivo da política moderna, que se vale do império das leis para administrá-lo, podemos afirmar que nas últimas décadas o império da lei ganhou um fim em si mesmo na medida em que é confundido com o próprio regime democrático. Percebemos isso quando a judicialização da vida se espraia por absolutamente todos os espaços discursivo em que vivemos, a ponto de se fazer da disputa judicial o meio sem fim da democracia. Só que numa democracia assim administrada, a busca da justiça é substituída pela busca do direito e a lei passa a deter a soberania sobre todos os nossos movimentos. Daí que vivemos em uma sociedade em que os “anormais” ambicionam ser contemplados pela lei, ser incluídos no reino messiânico dos “normais”, ao mesmo tempo em que novas “anormalidades” são criadas para legitimar tal movimento de “inclusão”. Como efeito de tudo isso, a ética da zona cinzenta explode em violência intestina.

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O futuro está aí: entre o pragmatismo liberal dos EUA – fazendo da ciência uma economia política para gerar empregos bizarríssimos (auditor de informação, p. ex.) – e a China – submetendo tod%$ a subempregos para não parar de crescer e manter a megamáquina funcionando. 

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Sobre poesia brasileira contemporânea. A poesia brasileira contemporânea entrou definitivamente no mercado artístico. Para além do seu tradicional valor de uso (pessoal, cultural ou escolar), adquiriu mais recentemente valores de troca (vale algum dinheiro) e de exposição (ganhou alguma visibilidade). Mesmo sem poder competir no mercado com produtos com mais poder de barganha, pode-se contratar um competente poeta para um bom show – que inclua leitura-ou-récita de poemas, acompanhada ou não de performance, comentários e bate-papo – por um custo bastante acessível. Quase todos têm sites ou páginas em redes sociais, onde divulgam seu trabalho com textos, resenhas críticas, fotos, vídeos. Por isso, finalmente, o poeta entrou no rol dos artistas públicos, o que tem dado a alguns certo status e até um dinheiro pingado. Se antes ser poeta no Brasil era enfrentar três tipos de trabalhos – escrever um livro, publicá-lo e divulgá-lo –, hoje já há a percepção de que pelo menos não é mais necessário a um poeta publicar livros. A falta de uma cultura livresca no país (que continua tão restrita e excludente quanto sempre foi) tem feito a poesia recuperar não só sua forma vocalizada como também achar na internet o grande suporte para tornar-se mais lida, comentada e acessível. Quem não vê vez por outra um poema passando em sua timeline do facebook? Ali – ao lado de Bandeira e Drummond – estão milhares de poetas brasileiros vivos disputando a atenção dos leitores. Talvez por isso só valha a pena falar de forma crítica da atual poesia brasileira sem falar o nome de nenhum poeta ou livro de poemas. Só quem pode de alguma forma dizer quem são e onde estão eles hoje no país é o Google e seus implacáveis algoritmos. Há poetas vivos de todos os tipos, linhagens e perfis, criando e prontos para mostrar algum bonito exemplar de sua lavra à primeira atenção dispensada a eles. De resto, é impossível mapeá-los no complexo e continental panorama brasileiro. Na atual crise de autoridade em todo o mundo, podemos incluir a) a crise de uma escola incapaz de competir com o mercado cultural em criar referências socioculturais para as pessoas; b) a crise do mercado editorial, com seus interesses via de regra limitados ao centro econômico do país e incapaz de fazer frente à exuberante cultura digital; e c) a crise da crítica literária, especializada em fazer o trabalho sujo de falar bem ou mal do que jornais e revistas não podem e não querem mais fazer (e quando fazem se parece com um arremedo desbotado do que outrora foi pelo seu alcance limitado e seu interesse marcado). Se isso, todavia, parece um cenário negativo, friso que considero essas crises como positivas, pois elas são efeito de uma diversidade poético-cultural pujante e impossível de ser captada e resumida por quem quer que seja. De forma que cada vez mais a única maneira radicalmente honesta de se escrever sobre poesia brasileira contemporânea limita-se a afirmar que ela está viva e ativa em absolutamente todos os cantos e recantos do país, dos mais badalados aos mais invisíveis. E cabe única e somente ao público apurar seu desejo, seu olhar e sua vontade de consumir poesia – de modo a escapar às pedagogias homogeneizantes das agências publicitárias. (revistaestrago.wordpress.com)

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Escritores e culto à personalidade autoritáriaUma ótima régua da relação que meus contemporâneos têm com o poder é o modo como os escritores reagem à autopublicação. O menosprezo velado aos que se autopublicam é indício de forte conservadorismo (e aburguesamento, mesmo que seja um escritor ferrado). E é gritante que haja tantos escritores que se autopublicam, mas gostam de fingir não. Posar, portanto, de “marginal” na vida, desejando uma editora estabelecida, vale tanto quanto ser bem estabelecido na vida, achando representar escritores marginais. Já o valor que os conservadorismos dão à lógica de consagração institucional confunde-se hoje facilmente com a lógica da consagração neoliberal da mídia. Ainda mais: quando o valor de qualquer ato é medido pela força da aparição pública (seja em nome do que for, sempre será uma propaganda), a enunciação mais berrada, mais repetida, mais hipnótica, mais performática – em sociedades gigantescas como as nossas – é também uma enunciação que faz par com o fascínio autoritário. E como são tempos verdadeiramente bizarros, tempos em que cada um governa a si e aos outros por um estranho desempenho performático (ser bem sucedido, vencedor, soberano, rebelde, transgressor ou justo, mas sempre dentro de alguma convenção), não me parece lamentável para a maioria dos meus contemporâneos a emergência de novos autoritarismos (os nomes estão aí, basta escolher). São/somos tão cúmplices-vítimas quanto qualquer outro que vive nessa zona cinzenta. O cinismo da nossa política cai como uma luva na mão de todos. Todos fingem controlar a situação, mesmo quando são controlados por ela. Figuras autoritárias sempre ascendem ao poder (ou testemunham sua fé de justiça) cultuadas e amparadas por coletividades que com elas se sentem compartilhando do poder.

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Os fascistas, os principais fascistas, os maiores e mais perigosos fascistas são os que estão no poder. Sempre. Todo poder é fascista, toda autoridade é fascista (por isso esquerda e poder nunca deram certo), toda instituição é fascista. Há os microfascismos corporativos e individuais entre intelectuais, artistas, professores universitários, militantes, alunos, sindicatos, trabalhadores de todos os tipos, minorias, famílias, religiões de todos os matizes, etc., em ações performáticas de força, orgulho, soberba e ironia, messianismos laicos, cultos à personalidade e triunfalismos, mas os fascistas do poder técnico-econômico do Mercado e do poder politico-jurídico do Estado são perigos em grande escala. E estes (partidos e juízes) estão desesperados, querendo se salvar com novos e velhos acordos. Desprezo profundamente quem apóia qualquer um deles, quem os justifica intelectual ou artisticamente: são palhaços do nosso teatro de horrores. 

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Autoritarismos e culpabilizações. São tempos “naturalmente” autoritários (e não se iluda, pois tanto “à droite” quanto “à gauche”), e não consigo desvinculá-los de uma sociedade de comunicação e imagem precificadas (o valor cultural do espetáculo) em que dizer e aparecer valem sempre mais do que escutar e olhar. Triunfalismo esperneante, à maneira das marchas dos camisas negras, anauês ou da paranoia de Stalin. Por isso, se você substituir uma acusação de “fascista” pela de “autoritário” e alguém responder que é você, cogite que o outro pode estar certo, independente da sua posição politica. São tempos em que as fronteiras fluidas do liberalismo sócio-econômico foram internalizadas. Mas ainda mais importante, em tempos de acusações generalizadas, é saber separar convicção de manobra, para – caso alguém confunda – saber que não se tem culpa. É prática se absolver de manobras e culpar outros por suas convicções. 

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O dEUs contemporâneo. Uma autodefinição diz mais do desejo do sujeito do que do sujeito em propriamente dito, o que faz de toda autodefinição um mero exercício de fé. Por isso toda autodefinição, se não for autoilusão, é persuasão retórica do interlocutor e do auditório. Jamais será um acontecimento. Já o acontecimento inscreve-se como o fora à ordem do discurso, por isso um ato enunciativo (o discurso que mais próximo se põe do acontecimento) se reduz apenas aos atos ilocutórios de Austin (prometer, segredar, aconselhar, jurar, etc.), ao irrepetível improviso dramático ou ao pensamento mágico – limiares entre linguagem e corpos. Nossas sociedades jamais foram de fato laicas, mas substituíram o feitiço dos deuses pelo fetiche do capital como parâmetro universal de medição, avaliação, comunicação e troca. Troca-se o dinheiro (pela compra) por praticamente tudo. Então, o pensamento mágico na modernidade (e cada vez mais atual) ocorre na lógica do capital e seu poder de produzir, executar, realizar e criar, matar, destruir, etc. Por isso acredita-se que toda enunciação é ato mágico, tratando-se a linguagem como instrumento do cálculo retórico naturalizado pelo capital. Como nossas instituições políticas têm matrizes europeias, nosso pensamento mágico também tem as mesmas matrizes, mais especificamente o pensamento teológico-político medieval, naquilo que ele possui de catolicamente monoteísta e romanicamente politeísta. Querer avaliar todo gesto discursivo como, em alguma medida, performático, é avaliá-lo pela mesma régua que se avalia o desempenho profissional de um vendedor, um executivo, um camelô, um técnico de futebol ou profissional liberal: pelo resultado precificável. Daí que nossos usos pragmáticos da linguagem (comunicar-trocar) estão definitivamente colonizados pela lógica do capital e sua mágica imanente. E junto com a linguagem, a vida corre o risco de ir a reboque. Avaliar a vida pelos seus resultados (principalmente os discursivos) é querer controlá-la e ao mesmo tempo frustrar-se com esse controle, restando grosso modo três caminhos: deprimir-se, suicidar-se ou culpar algo-e-alguém. Vide a aporia contemporânea que é recorrer à lei instituída para definir e controlar a vida através da legislação sobre a “liberação das drogas” ao lado das blitz contra motoristas embriagados, a interferência da lei como pró ou contra o aborto de fetos anencefálicos ao lado da interferência da lei pró ou contra a eutanásia, a legislação que regula os erros médicos ao lado daquela que regula a ortotanásia, dentre outras. Daí que uma/a vida hoje parece ser aquilo que escapa a qualquer definição, imagem, discurso e/ou legislação. A vida é vivida fora de absolutamente tudo o que definimos hoje como nossas vidas. A vida hoje só é vivida fora da lei. PERGUNTA: qual a consequência dessas reflexões para as políticas identitárias e para a autobiografia?

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“Parece-me que é preciso compreender uma coisa que muitos de nossos contemporâneos esquecem, que a hermenêutica e a semiologia são dois inimigos implacáveis”, disse um pensador cheio de seguidores que fizeram da sua palavra profissão de fé. Uma paradoxal e contraditória fé, pois acreditar que a semiologia pode fazer uma sociedade catastrófica como a brasileira é um absoluto contrasenso. Mas o que importa é que finalmente chegou o dia da massa comer e se lambuzar com o biscoito fino produzido no Collège de France e suas filiais pelo mundo. Só que a academia nunca pensou que suas interpretações infinitas acabariam parando na barra positiva da hermenêutica jurídica. Resta agora ou chorar o signo derramado ou jurar que a interpretação teme um fim, sim. Como a vida.

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