escritores e culto à personalidade autoritária

Uma ótima régua da relação que meus contemporâneos têm com o poder é o modo como os escritores reagem à autopublicação. O menosprezo velado aos que se autopublicam é indício de forte conservadorismo (e aburguesamento, mesmo que se seja um escritor ferrado). E é gritante que haja tantos escritores que se autopublicam, mas gostam de fingir não. Posar, portanto, de “marginal” na vida, desejando uma editora estabelecida, vale tanto quanto ser bem estabelecido na vida, achando representar escritores marginais.

Já o valor que os conservadorismos dão à lógica de consagração institucional confunde-se hoje facilmente com a lógica da consagração neoliberal da mídia. Ainda mais: quando o valor de qualquer ato é medido pela força da aparição pública (seja em nome do que for, sempre será uma propaganda), a enunciação mais berrada, mais repetida, mais hipnótica, mais performática – em sociedades gigantescas como as nossas – é também uma enunciação que faz par com o fascínio autoritário.

E como são tempos verdadeiramente bizarros, tempos em que cada um governa a si e aos outros por um estranho desempenho performático (ser bem sucedido, vencedor, soberano, rebelde, transgressor ou justo, mas sempre dentro de alguma convenção), não me parece lamentável para a maioria dos meus contemporâneos a emergência de novos autoritarismos (os nomes estão aí, basta escolher). São/somos tão cúmplices-vítimas quanto qualquer outro que vive nessa zona cinzenta. O cinismo da nossa política cai como uma luva na mão de todos. Todos fingem controlar a situação, mesmo quando são controlados por ela.

Figuras autoritárias sempre ascendem ao poder (ou testemunham sua fé de justiça) cultuadas e amparadas por coletividades que com elas se sentem compartilhando do poder.

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