sociedade do cansaço, sociedade da performance

  • Excertos do livro SOCIEDADE DO CANSAÇO, do coreano Byung-Chul Han. sociedadePetrópolis-RJ, Vozes, 2016.

“Visto a partir de uma perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal” (p. 07)

“Não são infecções, mas infartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade” (p. 08)

“Baudrillard aponta claramente para essa violência da positividade, [… para] o totalitarismo do igual” (p. 15)

“A comunicação generalizada e a hiperinformação ameaçam todas as forças humanas de defesa” (p.15)

“A positivação do mundo fez surgir novas formas de violência. Essas não partem do outro imunológico. Ao contrário, elas são imanentes ao sistema. Precisamente em virtude da sua imanência não invocam a defesa imunológica. Aquela violência neuronal que leva ao infarto psíquico é o terror da imanência” (p. 19-20)

“A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade do desempenho (performance). Também seus habitantes não se chamam mais ‘sujeitos de obediência’, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmo”. (p. 23)

“A sociedade do desempenho vai se desvinculando cada vez mais da negatividade. Justamente a desregulamentação crescente vai abolindo-a. O poder ilimitado é o verbo modal positivo da sociedade de desempenho. O plural coletivo da afirmação Yes, we can expressa precisamente o caráter positivo da sociedade do desempenho” (p. 24)

“Para elevar a produtividade, o paradigma da disciplina é substituído pelo paradigma do desempenho (performance)  ou pelo esquema positivo do poder, pois a partir de um determinado nível de produtividade, a negatividade da proibição tem um efeito de bloqueio, impedindo um maior crescimento. A positividade do poder é bem mais eficiente que a negatividade do dever. […] O sujeito do desempenho é mais rápido e mais produtivo que o sujeito da obediência. O poder no entanto não cancela o dever. O sujeito do desempenho continua disciplinado. ele tem atrás de si o estágio disciplinar. O poder eleva o nível de produtividade que é intencionado através da técnica disciplinar, o imperativo do dever. Mas em relação à elevação da produtividade não há qualquer ruptura, há apenas continuidade.” (p. 25-6)

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“O homem depressivo é aquele animal laborans que explora a si mesmo e, quiçá deliberadamente, sem qualquer coação estranha. É agressor e vítima ao mesmo tempo […] A depressão irrompe no momento em que o sujeito do desempenho não pode mais poder. Ela é de princípio um cansaço de fazer e de poder. A lamúria do sujeito depressivo de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível” (p. 28-9)

“O sujeito do desempenho (performance) encontra-se em guerra consigo mesmo” (p. 29)

“O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. […] Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal” (p. 30)

“A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem. Trata-se da técnica de atenção indispensável para sobreviver na vida selvagem” (p. 31-2)

“Pura inquietação não gera nada de novo.Reproduz e acelera o já existente”. (p. 34)

“A desnarrativização (Entnarrativisierung) geral do mundo reforça o sentimento de transitoriedade. Desnuda a vida. o próprio trabalho é uma atividade desnuda. O trabalho desnuda é a atividade que corresponde à vida desnuda. O trabalho desnudo e a vida desnuda condicionam-se mutuamente. Em virtude da falta de técnicas narrativas de morte surge a coação de conservar a vida desnuda incondicionalmente sadia. O próprio Nietzsche dissera que após a morte de Deus a saúde se erige como uma deusa. Se houvesse um horizonte de sentido que se eleva acima da vida desnuda, a saúde não poderia ser absolutizada nessas proporções” (p. 44-5)

“Se a sociedade do desempenho reduz a todos nós como vida desnuda, então não apenas as pessoas que estão à margem da sociedade ou as pessoas em situações excepcionais, portanto não apenas os excluídos, mas todos nós indistintamente somos homines sacri. Todavia, eles têm a especificidade de não serem absolutamente mortos, mas de serem absolutamente não passíveis de serem mortos. São como que mortos-vivos. […] Ora, a própria vida desnuda, despida é sagrada, de modo que deve ser conservada a qualquer preço” (p. 46)

han2.jpeg“Embora o futuro do mundo não dependa do pensamento, mas do poder das pessoas que agem, o pensamento não seria irrelevante para o futuro das pessoas, pois dentre as atividades da vita activa o pensamento seria a mais ativa atividade, superando as outras atividades quanto à pura atuação.” (p. 48)

“É uma ilusão acreditar que quanto mais ativos nos tornarmos, mais livres seríamos” (p. 52)

“A atividade pura nada mais faz do que prolongar o que já existe. Uma virada real para o outro pressupõe a negatividade da interrupção” (p. 53)

“A atividade que segue a estupidez da mecânica é pobre em interrupções. A máquina não pode fazer pausas […] na medida em que lhe falta capacidade para hesitar” (p. 53-4)

“O futuro se encurta numa atualidade prolongada. Falta-lhe qualquer negatividade, que permitiria olhar para o outro. A ira, ao contrário, coloca definitivamente a questão do presente. Ela pressupõe uma pausa interruptora no presente. É nisso que ela se distingue da irritação. a dispersão geral que marca a sociedade de hoje não permite que surja a ênfase e a energia da ira. A ira é uma capacidade que está em condições de interromper um estado, e fazer com que se inicie um novo estado” (p. 54)

“A irritação está para a ira como o medo está para a angústia” (p. 54)

“A ira nega o todo. Nisso consiste a energia da negatividade. Ela representa um estado de exceção. Acrescente positivação do mundo torna-o pobre em estados de exceção […] A positivação geral da sociedade hoje absorve todo e qualquer estado de exceção. Assim o estado de normalidade torna-se totalitário” (p. 55)

“A ausência de negatividade transformaria o pensamento num cálculo” (p. 56)

“O computador está livre de toda e qualquer alteridade. É uma máquina positiva […] No empuxo daquela positivação geral do mundo, tanto o homem quanto a sociedade se transformam numa máquina de desempenho autista” (p. 56)

“O esforço exagerado em maximizar o desempenho (performance) afasta a negatividade, porque essa atrasa o processo de aceleração” (p. 56)

“Bartleby não se vê confrontado com aquele imperativo de ter que ser ele mesmo, que marca a sociedade do desempenho (performance) pós-moderna. Bartleby não fracassa no projeto de ser eu” (p. 62)

“A expressão negativa ‘dopping cerebral’ é substituída por ‘neuro-enhancement‘ (melhoramento cognitivo). O dopping possibilita de certo modo um desempenho sem desempenho” (p. 69)

“Não só o corpo, mas também o homem como um todo se transforma numa máquina de desempenho, que pode funcionar livre de perturbações e maximizar seu desempenho. O dopping não passa de uma consequência dessa evolução na qual a própria vitalidade, que é constituída por um fenômeno bastante complexo, é reduzida a uma função vital e um desempenho vital” (p. 70)

“[Os cansaços] são violência porque destroem qualquer comunidade, qualquer proximidade, sim, inclusive a própria linguagem” (p. 71)

“À mão trabalhadora, que agarra, Handke contrapõe a mão lúdica, que já não agarra decididamente” (p. 74)

“O cansaço profundo afrouxa as presilhas da identidade. As coisas pestanejam, cintilam e tremulam em suas margens” (p. 75)

“Um dia no qual seria possível o uso do inútil” (p. 76)

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