trabalho acadêmico e trabalho intelectual

Pessoalmente, sempre fui muito incomodado com o dia-a-dia universitário diante das expectativas que tinha antes de nele entrar. Tanto que após ler um texto no Academia.Edu sobre o sociólogo jamaicano Stuart Hall percebi o grande engodo em que muitos caem e que faz parte natural do jogo de mitificações institucionais da sociedade moderna.

O texto foi escrito por uma acadêmica que hoje encontra-se na Austrália, mas que então era uma mestre recém-formada em alguma universidade holandesa e que pensava em seu projeto de doutorado, ambicionando ser orientada por Hall. Quando teve a oportunidade de mostrar-lhe o projeto, recebeu como resposta: “por que não escreve um livro, ao invés de fazer um doutorado com esse projeto?”. O próprio Hall nunca concluiu um doutorado, lecionava à noite na Open University (universidade noturna para trabalhadores na Inglaterra) e recusou inúmeros convites para transferir-se para as poderosíssimas universidades norte-americanas, o que nunca o impediu de pesquisar, publicar, ser um dos fundadores do famoso Centro de Estudos Culturais de Birmingham e ter forte presença intelectual nos debates sociais, não necessariamente acadêmicos.

A conclusão dela é de que há uma diferença entre o trabalho acadêmico e institucional e o trabalho intelectual. Enquanto aquele é formado por intermináveis cursos, seminários, congressos, ‘networkings’, projeto e relatórios, publicações fatiadas (“publish or perish!”) de pesquisas que poderiam ser melhor pensadas e orientações (uma verdadeira linha de montagem industrial de pesquisadores), administração universitária e reuniões (no caso das brasileiras) kafkianas, este é um projeto de singularização intelectual (pessoal ou grupal) que tem a ver criação de formas sociais de produção não institucional (por isso politicamente mais livres) no espaço público.

O interesse da autora é justificar a linha de estudos (hoje devidamente institucionalizada) dos Estudos Culturais, mas me ajudou a fazer essa distinção, pessoalmente muito importante, entre trabalho intelectual e trabalho acadêmico. Poucos são um Antonio Cândido que conseguiu forjar uma assinatura intelectual ao mesmo tempo em que formava o Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da  USP (com mão de ferro, diga-se de passagem, segundo consta, e ao lado de outros de um grupo que incluía José Aderaldo Castello no departamento de Literatura Brasileira). Talvez até uma parte da mitificação de Cândido deva-se também a essa atuação político-institucional (o que incluiu também orientar institucionalmente, não formar intelectualmente, críticos completamente opostos, como Haroldo de Campos e Luis Costa Lima: o que é sem dúvida louvável). Mas eram outros tempos.

Por isso, meu projeto pessoal e intelectual hoje é aos poucos concluir as orientações que possuo e me descredenciar da pós-graduação do ILUFBA. Depois de mais de 10 anos de “serviços prestados”, quero me dedicar a trabalhos intelectuais.

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