primo levi entre afogados e sobreviventes

[primeira metade do livro]

“ressaltar como ambas as partes, as vítimas e os opressores, tinham viva consciência do absurdo e, portanto, da não credibilidade daquilo que ocorria nos Lager; e podemos aqui acrescentar, não só nos Lager, mas nos guetos, mas retaguardas da frente original, dos postos de polícia, nos hospitais para os deficientes mentais” (p. 10)

“hoje se pode afirmar que a história dos Lager foi escrita quase exclusivamente por aqueles que, como eu próprio, não tatearam seu fundo. Quem o fez não voltou, ou então sua capacidade de observação ficou paralisada pelo sofrimento e pela incompreensão” (p. 14)

“um testemunho era um ato de guerra contra o fascismo” (p. 15)

primo-levi

“Talvez seja indispensável uma certa dose de retórica para que dure a memória” (p. 16)

“O interior dos Lager era um microcosmos intrincado e estratificado; a zona cinzenta […], aquela dos prisioneiros que em alguma medida, talvez com boa intenção, colaboraram com a autoridade, não era tênue, constituindo, antes, um fenômeno de fundamental importância para o historiador, o psicólogo e o sociólogo […]: as primeiras ameaças, os primeiros insultos, os primeiros golpes não vinham dos SS, mas de outros prisioneiros, de ‘colegas’, daqueles misteriosos personagens que também vestiam o mesmo uniforme de listras recém-vestido pelos novatos” (p. 16-7)

“em que medida o mundo concentracionário morreu e não retornará mais, como a escravidão e o código de duelos? Em que medida retornou ou está retornando? Que pode fazer cada um de nós para que neste mundo pleno de ameaças, pelo menos esta ameaça seja anulada?” (p. 17)

“encontramo-nos uma analogia paradoxal entre vítima e opressor, e importa ser claro: os dois estão na mesma armadilha, mas é o opressor, e só ele, quem a preparou e a fez disparar, e, se sofre com isto, é justo que sofra; e é iníquo que com isto sofra a vítima, como efetivamente sofre, mesmo que numa distância de decênios” (p. 20)

“a exigência de dividir o campo entre ‘nós’ e ‘eles’ […], se ressentem dessa tendência maniqueísta que evita os meio-tons e a complexidade: são propensas a reduzir a torrenteos-afogados-e-os-sobreviventes-os-delitos-os-castigos-as-penas dos acontecimentos humanos aos conflitos, e os conflitos a duelos, nós e eles, os atenienses e os espartanos, os romanos e os cartagineses. Decerto, este é o motivo da enorme a popularidade dos esportes espetaculares, como o futebol, o beisebol e o pugilismo, nos quais os contendores são dois times ou dois indivíduos, bem distintos e identificáveis, e no fim da partida haverá os vencedores e os derrotados” (p. 32)

“os jovens, sobretudo, pedem clareza, o corte nítido; sendo escassa sua experiência de mundo, eles não amam a ambiguidade. Sua expectativa, de resto, reproduz com exatidão aquela dos recém-chegados aos Lager, jovens ou não” (p.32)

“é imprudente precipitar-se emitindo um juízo moral” (p. 37)

“Um deles declarou: ‘ao fazer esse trabalho, ou se enlouquece no primeiro dia ou então se acostuma’. Outro disse: ‘por certo, teria podido matar-me ou me deixado matar, mas queria sobreviver, para vingar-me e para dar testemunho. Vocês não devem acreditar que nós somos monstros: somos como vocês, só que muito mais infelizes'” (p. 45)

“De homens que conheceram essa destituição extrema não se pode esperar um depoimento no sentido jurídico do termo, e sim algo que fica entre o lamento, a blasfêmia, a expiação e o esforço de justificativa, de recuperação de si mesmos. Deve-se antes esperar um desafogo libertador do que a verdade com rosto de Medusa” (p. 45)

“Birkenau era o único lugar do mundo em que existia a possibilidade de se observar cadáveres de gêmeos assassinados no mesmo momento (p. 46)

“Piedade e brutalidade podem coexistir, no mesmo indivíduo e no mesmo momento, contra toda a lógica; de resto, a própria piedade foge à lógica. Não existe proporção entre a piedade que experimentamos e a extensão da dor que suscita a piedade: uma só Anne Frank gera mais comoção do que uma infinidade que sofreu como ela, mas cuja imagem permaneceu na sombra. Talvez seja necessária isso; se devêssemos e pudéssemos sofrer os sofrimentos de todos, não poderíamos viver” (p. 48)

“ninguém pode saber por quanto tempo, e a quais provas, sua alma resistirá antes de dobrar-se ou de quebrar” (p. 51)

o-testemunho-de-primo-levi-html

“A história de Rumkowski é a história desagradável e inquietante dos Kapos e dos funcionários dos Lager; dos chefetes que servem a um regime a cujos crimes se mostram deliberadamente cegos; dos subordinados que assinam tudo, porque uma assinatura custa pouco; de quem balança a cabeça, mas consente; de quem diz: ‘se eu não o fizer, um outro pior do que eu o fará’ […]

Como Rumkowski, também nós somos ofuscados pelo poder e pelo prestígio a ponto de esquecer nossa fragilidade essencial: pactuamos com o poder, de bom grado ou não, esquecendo que no gueto estamos todos, que o gueto está cercado, que além de seu perímetro estão os senhores da morte, e que não muito distante espera o trem” (p. 58-9)

“nosso metro moral havia mudado” (p. 65)

“Mais realista é a auto-acusação, ou a acusação, de ter falhado no aspecto da solidariedade humana. Poucos sobreviventes se sentem culpados de ter lesado, subtraído, golpeado um companheiro: quem o fez (os Kapo, mas não só eles) trata de recalcar a lembrança; inversamente, quase todos se sentem culpados de omissão de socorro. A presença a seu lado de um companheiro mais fraco, ou mais indefeso, ou mais velho, ou demasiado jovem, que o assedia com pedidos de ajuda, ou com a simples ‘presença’ que por si só é uma súplica, é uma constante da vida no Lager. O pedido de solidariedade, de palavra humana, de um conselho ou apenas de atenção era permanente e universal, mas raramente encontrava satisfação. Faltavam o tempo, o espaço, a privacidade, a paciência, a força; no mais das vezes, aquele a quem o pedido era dirigido se achava, por seu turno, num estado de carência, de crédito.” (p. 67-8)

“A fome extenua, a sede enfurece” (p. 69)

“Você tem vergonha porque está vivo no lugar de um outro?” (p. 70)

“Sobreviviam de preferência os piores, os egoístas, os violentos, os insensíveis, os colaboradores da ‘zona cinzenta’, os delatores. Não era uma regra certa (não havia nem há, nas coisas humanas, regras certas) […] Sobreviviam os piores, isto é, os mais adaptados. Os melhores, todos, morreram”. (p. 71)

“Nós, tocados pela sorte, tentamos narrar com maior ou menor sabedoria, não só o nosso destino, mas também aquele dos outros, dos que submergiram: mas tem sido um discurso ‘em nome de terceiros’, a narração de coisas vistas de perto, não experimentadas pessoalmente. A demolição levada a cabo, a obra consumada, ninguém a narrou, assim como ninguém jamais voltou para contar sua morte. Os que submergiram, ainda que tivessem papel e tinta, não teriam testemunhado, porque sua morte começara antes da morte corporal. Semanas e meses antes de morrer, já tinham perdido a capacidade de observar, recordar, medir e se expressar. Falamos nós em lugar deles, por delegação” (p. 73)

“o homem, o gênero humano, nós, em suma, éramos potencialmente capazes de construir uma quantidade infinita de dor; e que a dor é a única força que se cria do nada, sem custo e sem cansaço. Basta não ver, não ouvir, não fazer” (p. 74)

[LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes. 2 ed. São Paulo, Paz e Terra, 2004.]

Anúncios