excertos de marjorie perloff

“… eu tenho alguns maravilhosos colegas, mas no compto geral eu acho que não falo a mesma língua que a maioria dos membros do meu departamento. Sim, lemos os mesmos teóricos, mas enquanto muitos acadêmicos tendem a adotar um paradigma particular (crítica psicanalítica, marxista, desconstrução, Escola de Frankfurt, estudos culturais, crítica de gênero, etc.), eu sempre me senti cética em relação a tais fidelidades – em grande parte, sem dúvida, porque a adoção de um modelo teórico põe o trabalho literário em uma posição secundária, uma posição na qual o poema tende a não ser mais do que um exemplo de X ou um sintoma cultural de Y.

Perloff-2aPor que seria esse o caso? Por que a ‘teoria’ (seja feminista ou pós-colonial, psicanalítica ou a teoria da nova globalização) agora tem muito mais capital cultural ou acadêmico do que a maior parte de textos literários centrais: Hamlet ou a Divina Comédia ou Ulysses? Eu argumentaria que a morte do cânone – de uma lista de textos que se espera os alunos conheçam – torna extremamente difícil sustentar um sentido de coesão ou unidade departamental, ainda mais num nível institucional. […] Cada vez mais, o único jeito de engajar colegas em outros momentos da literatura é achar um ‘guarda-chuva’ – seja a teoria queer, a crítica lacaniana ou a Escola de Frankfurt – que possa abraçar a agora grande amplitude de áreas de estudos ‘literários’.

Mas onde isso coloca o poeta? Ironicamente, não importa o novo ou atualizado paradigma teórico em questão, o paradigma é mais usualmente amigável quando vem com trabalhos sobre períodos anteriores do que em relação à poesia de ponta ou trabalhos artísticos do nosso próprio período. O paradigmático, em outras palavras, está inevitavelmente em desacordo com a confusão e riqueza de uma obra-em-processo. A teoria narrativa de Bakhtin, por exemplo, tem sido enormemente rentável em relação direta com o romance de Diderot a Toni Morrison, mas e em relação ao vídeo de Bill Viola? Ou um texto hibrido-lírico narrativo/documental/histórico como o Pierce Arrow, de Susan Howe? Ou o parque de esculturas ‘Little Sparta’, de Ian Hamilton Finley?” (p. 262)

***

“Uma conversa sobre o ‘quem é quem’ acadêmico pode também ser um beijo da morte, na medida em que o trabalho criativo está envolvido” (p. 263)Perloff

***

“De outro lado – e esse é meu assunto aqui – a filiação com a comunidade de uma poesia ‘não filiada’ por alguém que não é um ‘deles’ não é sem problemas. Desde que minhas própria fidelidade tem sido e continua a ser a vanguarda poética, seja a do início do século XX seja a do presente, sou de muitos modos uma inimiga natural do Grupo de Escrita Criativa do Departamento de Inglês. Por definição, embora haja agora notáveis exceções, como a SUNY-Buffalo ou Brown – as oficinas de Escrita Criativas são conservadoras. […]” (p. 263)

***

“… Eu não quero ser classificada por gênero, raça, religião ou etnia, embora tudo isso jogue um amplo e complexo papel em minha imagem – ou na de qualquer um. Eu não quero ter de escrever sobre poetas mulheres porque sou mulher ou sobre poetas judeus porque sou judia. Eu também não quero ser classificada como acadêmica tout court, mas o tenho assumido – como está, digamos, na MLA (Modern Language Association) – seja como acadêmica das humanidades ou, mais fácil, em Inglês, nós inevitavelmente escrevemos para outros acadêmicos. Nem quero ser classificada como apologista de uma comunidade de poetas (no caso, os Language Poets), às expensas de outros escritores.

perloff1

Filiação – como na linguagem nos fins dos anos 1970 ou 1980 – é uma faca de dois gumes. […] Sem filiação, parece, é impossível em uma sociedade de massa funcionar de alguma forma, mas filiação, seja acadêmica ou literária, seja baseada em gênero ou raça, etnia ou classe, Ivy League ou grande universidades estaduais, pode facilmente se tornar uma camisa de força. Uma vez atrelada a X ou Y, você não mais precisará expandir seus horizontes, fazer melhor ou, nas palavras de Jasper Johns, fazer outra coisa.” (p. 267)

MARJORIE PERLOFF, Writing poetry/Writing about poetry. Differentials. Poetry, poetics, pedagogy. Tuscaloosa, The University of Alabama Press, 2004.

Anúncios