CRÍTICA RASTEIRA

Editada há mais de 14 anos na internet pelo meu amigo Lima Trindade, a Revista VERBO21 vai fechar as portas. Com isso, perco não só um espaço que julgava uma casa no árido campo de guerra na web, como também um local com o qual colaboro desde o início e que aceitava tanto meus artigos mais diretos quanto os mais idiossincráticos, escritos anos atrás e desaparecidos no vácuo da rede. Um espaço realmente democrático.

No último formato da revista, eu escrevia mensalmente a pedido de Lima impressões de livros de poesia que caíssem nas minhas mãos e me estimulassem a dizer algo, qualquer coisa, sobre eles em poucas linhas. Daí que publico aqui os quatro últimos textos, que ficam sem ver a luz do dia pela VERBO21, como um agradecimento meu ao Lima e à revista.

Os livros são: Poesia, de Eurico Alves, Curare, de Ricardo Corona, Eu me chamo Antonio, de Pedro Gabriel, e Roça barroca, de Josely Vianna Baptista.

POESIA. Eurico Alves. Salvador: Fundação das Artes/Empresa Gráfica da Bahia, 1990.

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A reunião da poesia de Eurico Alves pela sua filha, a professora de literatura Maria Eugênia Boaventura, faz jus a um dos nomes que dão perfil ao modernismo na Bahia, para além da figura de Jorge Amado. Junto, por exemplo, com o grapiúna Sosígenes Costa, o feirense Eurico Alves parece ocupar um lugar geográfica e poeticamente intermediário na história do modernismo brasileiro, sempre descrito e estudado de forma incompleta. Ambos articulam em sua poesia elementos do superestudado modernismo paulista com elementos do ainda não tão valorizado modernismo pernambucano, ligado a Gilberto Freyre e Cícero Dias, e de onde sairiam a poesia de Joaquim Cardozo e a prosa de José Lins do Rêgo, por exemplo. Em Eurico Alves, essa articulação me parece mais pronunciada do que no poeta do sul da Bahia. Lemos em sua poesia – principalmente aquela de juventude –, o forte ímpeto modernista dos longos versos livres, de ritmos hipnotizantes e imagens embebidas de uma poética de matriz futurista; exceto por um detalhe: a descrição de elementos maquínicos de forte carga dramática na poesia de Eurico Alves não o faz o cultor da máquina e dos, então, tempos modernos. Há algo de uma melancólica saudade na sucessão de imagens ligadas à cidade, às máquinas, ao ritmo incessante e ardente da vida moderna. Um poema como “Usina” demonstra isso à exaustão, pois projeta uma ambígua imagem de usina açucareira: de um lado, ligada à lógica dos novos tempos, mas, por outro lado, o símbolo de um passado entre opulento e cruel marcando a memória da região: “E, ondulando, farfalhando, / o canavial se estende interminavelmente, / como um sonho esmeráldico de fartura / da usina / que, no centro, / estridula e apita e jazzbandiza ferros / numa alucinação fantástica de mil músculos de aço / tinindo e retinindo, zoando e retumbando no abandono do vale. / Macabra mistura de polias, cordames, manivelas e rodas dentadas, / furiosamente, diabolicamente, alucinadamente”. No entanto, sua poesia aos poucos também adquiriu outros contornos, e essa duplicidade se tornou mais apaziguada e assumiu mais fortemente as cores da melancolia, de uma saudade que se traduz em uma dicção menos violenta e mais madura e cadenciada, mesmo que ainda escrita em longos versos livres: “Bate, dentro do luar, a cancela, bate mansamente, / ressonância de coração que envelhece na paisagem sem rancor. / Bate ao sol, bate ao luar, nos nervos crespos do mourão da baraúna, / melodia da saudade, recuando até nós. // Não haverá outros gemidos lá fora abafando a música da minha alegria. // Quando poderei sonhar no solar herdade de meu Pai?”. Eurico Alves simboliza perfeitamente na sua poesia o modernismo brasileiro que muito encontramos das Minas Gerais para cima, por exemplo no Drummond de “Infância” (“Lá longe meu pai campeava / no mato sem fim da fazenda. // E eu não sabia que minha história / era mais bonita que a de Robinson Crusoé”) e no Menino de Engenho de José Lins do Rêgo, um modernismo que se esforçou por representar a memória de uma cultura brasileira lutando para se modernizar ao mesmo tempo em que sofria por perder o paraíso de que era senhora.

CURARE. Ricardo Corona. São Paulo: Iluminuras, 2011.

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Este é um livro diferente, que deve ser lido com cuidado. Como o título aponta, ele pode matar. Aliás, o sentido de ‘curare’ está disposto logo à entrada, como epígrafe: “veneno muito forte preparado pelos índios sul-americanos, para envenenar flechas”. Mas Curare também tem um subtítulo que circunscreve seu discurso como “etnopoesia”. Escapando à lógica contemporânea da poesia cotidianamente narrativa e alegoricamente banal, que confunde transparência da linguagem com política, Corona produz um forte diálogo entre as textualidades ocidentais de vanguarda e as extraocidentais, gaguejando vertiginosa e antinarrativamente línguas-imaginários diversos, como propõe Jerome Rothenberg, criador do termo “etnopoética”. A sua é uma poética de fronteiras, verbal e visual, mas sempre valendo-se da escrita alfabético-fonética; multilíngue criativa (português, guarani, castelhano, inglês, alemão, latim, grego) sem ser arrogante poliglota; multitemporal, pois simultaneamente moderna e ancestral, metalinguística e mágica, ao empregar sobretudo substantivos concretos para nomear coisas e, assim, remeter a diversos imaginários culturais: destaco do imaginário ameríndio (leitmotiv do texto) a presença constante de referências a povos, plantas, rios, peixes, estrelas, lua, sol, barro, serpente e insetos. Aliás, o uso criativo e espacializado de sinais gráficos como dois pontos, vírgulas, parênteses, barras, maiúsculas, itálicos, dentre outros, parece a certa altura significar no espaço em branco da página os mesmos insetos-signos que são portadores de doenças tropicais, bem como são o próprio “inseto-homem”, mesclando o imaginário humano ao animal, com a preponderância deste. Mas há o imaginário das águas fluviais e oceânicas; há o imaginário telúrico mesclado ao globalizado; o imaginário da própria poesia, entendida não como literatura, mas como espaço de criação gráfica intercultural, ligando os grafismos rupestres pré-históricos às mais atuais maquinações tecnológicas. O único senão que lamento na aventura gráfico-linguística de Curare é Ricardo Corona não ter investido no diálogo entre os sinais gráficos provenientes da nossa escrita alfabético-fonética e outras formas (extraocidentais) de escrita, tão encontradas entre os ameríndios, que por exemplo consideram muitos desenhos nas escamas das serpentes signos de uma escrita “natural” a ser lida pelos xamãs com o objetivo de dar “um sentido mais puro às palavras da tribo”.

EU ME CHAMO ANTÔNIO. Pedro Gabriel. Rio de Janeiro, intrínseca, 2013.

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A poesia visual tem estado em voga nos últimos anos, muito em função do fácil acesso e manuseio que hoje as novas tecnologias proporcionam às pessoas. Se juntarmos a isso o processo de institucionalização por que passam os autores que escreveram suas obras nos anos 1970 como Cacaso, Ana Cristina Cesar, Waly Salomão, Caio Fernando Abreu e Paulo Leminski, temos um caminho para entender algo do livro Eu me chamo Antônio, de Pedro Gabriel. Se nós completarmos os elementos da equação com a internet enquanto plataforma de comunicação e divulgação dos trabalhos do autor, agora sim poderia estar explicado o livro e sucesso do autor. Mas seria ele verdadeiramente um livro de poemas, ainda mais quando o próprio autor vem repetindo não ser um poeta? Não cairei na armadilha de vir aqui definir o que é ou não poesia, mas que o homogêneo e estiloso trabalho caligráfico (de “kallos”, beleza, e “graphos”, grafia) com letras e palavras, acoplado ao empenho visual, mesclando fotos e desenhos, sem sombra de dúvida está muito perto da poesia, sobretudo, repito, àquela nascida junto à poesia da geração 70, e seu pastiche da tradição das vanguardas. Ou, afinal, não se parecem com as hoje popularíssimas tiradas leminskianas textos como “Quem fica faz arte com as sobras de quem parte”, ou “estou passando por uma frase difícil”, ou por fim “Você chegou maçã e salva. Agora podemos pecar em qualquer paraíso”? Simples trocadilhos, é verdade, mas que – desenhados em guardanapos reproduzidos nas páginas com criações visuais muito praticadas em agências publicitárias – possuem algo próximo do tipo de pensamento poético que se encontra nas sintaxes mais alambicadas, nas metáforas mais inusitadas e nos ritmos mais hipnotizadores da tradicional poesia em versos. Mas – dito isso – resta a pergunta: poesia é publicidade?

ROÇA BARROCA. Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

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Roça barroca, da poeta e tradutora Josely Vianna Baptista, demonstra com profusão de exemplos o que há de permanente (para não usar o desgastado termo “eterno”) no que chamamos poesia, seja ela grega, iorubá, provençal, vanguardista, barroca ou contemporânea: palavra exata, ritmo e tropos, que podem ser retóricos ou cosmológicos. Para essa demonstração, Josely traduz com aparente apuro três cantos iniciais do Ayvu rapyta, textos mitopoéticos da cosmogonia Guarani Mbyá. O livro é formado por esses três cantos em formato bilíngue, todo um aparato de apresentação, comentários e glossário sobre a tradução e a cultura Guarani Mbyá e uma significativa seção de poemas da própria tradutora em que ela elabora um produtivo diálogo com a poética, a cultura e a história guarani e seus impasses. A autora afirma inclusive ter feito algumas viagens a comunidades Mbyá do Paraná, o que ajuda a entendermos esse livro em um verdadeiro estudo etnopoético, fazendo também do Paraná o estado de uma poesia inventiva e rica em diálogos interculturais, com mirada etnográfica e expertise poética. Dos cantos traduzidos, me vem a imagem da espiral, pois são relatos que não seguem a linha reta da narrativa, mas são, antes, movidos pela repetição programática de núcleos ideativos em versos que veem e vão, agenciando imagens que são aos poucos inseridas nos cantos. Por estarem em verso, criam um efeito menos de linearidade ou fragmentação e mais de variação rítmica. Tudo bem de acordo com o que se espera de um poema cosmogônico, que trata da criação do mundo, dos povos, de seres e demais elementos. Mas eu destacaria sobretudo o final da terceira parte, quando depois de pôr ordem no caos, desdobrar o tempo e o espaço, criar seus filhos e as coisas do mundo, dando-lhes vida, cor e som e por fim, nomear todas as coisas do mundo, “Ñamandu, pai verdadeiro, o primeiro” “segredou o canto sagrado aos verdadeiros pais primeiros / segredou o canto sagrado às verdadeiras mães primeiras”, transformando todo filho seu em um criador, em um poeta, pois recebeu o dom do canto sagrado. Fica, portanto, a impressão que para os Guarani Mbyé, todo ser vivo é um poeta em potencial, à semelhança do “pai primeiro” que criou o mundo e os seres nomeando-os. Concluo afirmando que isso por si só justificaria Josely colocar seus próprios poemas em diálogo com a história, a cultura e a poética Mbyá, pois ela assume enquanto poeta esse lugar de “mãe primeira” dos cantos traduzidos. Mas ainda mais, como sugere Luis Dolhnikoff na “orelha”, seus poemas funcionam como um poderoso arco temporal que funde a arcaica mitopoética dos Guarani Mbyá da primeira parte ao que há de mais inventivo e até minimalista em matéria de poesia contemporânea, ou seja: uma roça barroca.

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