CRÍTICA RASTEIRA: A COLUNA PERDIDA

Como a Revista VERBO21 trocou de formato, umas duas das minhas colunas foram perdidas do site, mas publico uma aqui, com dois livros que gostei muito de ler:

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POEMAS, de Wislawa Szymborska (trad. Regina Przybycien), São Paulo, Companhia das Letras, 2011.

“Era para ter sido melhor do que os outros o nosso século XX”, escreve Wislawa Szymborska no primeiro verso do poema “Ocaso do século”. Pouco adiante acrescenta: “Coisas demais aconteceram, / que não eram para acontecer, / e o que era para ter sido / não foi”. É com esse espírito que se deve abrir a antologia bilíngue que a Companhia das Letras publicou em 2011 da poeta polonesa, Prêmio Nobel de 1996: uma longa reflexão sobre o século XX, do qual ela participou em alguns dos seus muitos acontecimentos. Entenda-se, participou vivendo, observando e escrevendo, como poeta.  Seu texto é reflexivo, “pensamentado”, como certa vez disse Mário de Andrade sobre Drummond, de quem Szymborska muito se aproxima também pela ironia desenganada. Szymborska pertence à geração que nasceu no entreguerras e viu seu país ser ocupado pelos nazistas, continuar ocupado pelos soviéticos e tornar-se enfim livre no fim do século. Por isso ela pode afirmar cáustica em “Muito divertido”: “Anseios de felicidade / anseios de verdade / anseios de eternidade, / olhem só! // (…) / em uma palavra: quase ninguém, / mas a cabeça cheia de liberdade, onisciência e o ser / acima da carne insensata, / olhem só! // (…) // Obstinado, deve-se admitir, e muito. / Com essa argola no nariz, nessa toga, nesse suéter. / Seja como for, divertido. / Pobre-diabo. / Uma pessoa de verdade.” Por ser uma perfeita representante de quem viveu o tão longo e tão curto século XX, Szymborska a cada poema repete seu ponto de vista sobre a humanidade, através de reflexões mais gerais ou de histórias mais pontuais; mas esse ponto de vista tem um lugar também muito bem claro, e que, por outro lado, só pôde se afirmar também no século XX. Em poemas como “Retornos”, “A mulher de Lot” e “Retrato de mulher”, ela faz essa crítica como mulher, dona de uma lógica que não a deste mundo ao qual pertence: “Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo. / Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um. / Ingênua, mas a que melhor aconselha. / Fraca, mas aguenta.” Sua poesia é profundamente política, mas por ter vivido os terrores do comunismo soviético na sua Polônia suspeita também profundamente daquilo que escreveram e fizeram J.-P. Sartre, Pablo Neruda, Jorge Amado e muitos outros contemporâneos seus: “Somos filhos da época / e a época é política. // Todas as tuas, as nossas, as vossas coisas / diuturnas e noturnas, / são coisas políticas. // (…) // Enquanto isso matavam-se os homens, / morriam os animais, / ardiam as casas, / ficavam ermos os campos, / como em épocas passadas / e menos políticas”. Mas não se deve entrar na sua poesia pensando se tratar de uma poesia amargurada, pois mesmo suspeitando do século, do homem e da política, Szymborska continua afirmando seu espaço mais concreto, mais ínfimo e mais excessivo, como no poema “Excesso” – sobre uma nova estrela descoberta: “A estranheza não teria aqui nada de estranho / se ao menos tivéssemos tempo para ela”. Assim como essa estrela, excessiva também é a poesia, e o lugar de alegria em Szymborska: “Existe então um mundo assim / sobre o qual exerço um destino independente? / Um tempo que enlaço com correntes de signos? / Uma existência perene por meu comando? // A alegria da escrita. / O poder de preservar. / A vingança da mão mortal”. Uma poeta do século XX para o século XXI.

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CACHORRO RABUGENTO MORTO EM NOITE CHUVOSA, de Nelson Magalhães Filho. Feira de Santana, MAC, 2010.

Há um fluxo que atravessa e relaciona os poemas de Nelson Magalhães Filho, em Cachorro rabugento morto em noite chuvosa – seu sexto livro de poesia, lançado com a chancela de Roberval Pereyr, sob o selo do Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana – com seu trabalho plástico e em vídeo. Fluxo que se pode ser colocado na conta da linguagem que a poesia de NMF elabora e que não se limita ao texto, expandindo-se na verdade para o campo ampliado do discurso, onde a vida se cria, onde ganha e perde sentido, para poder afirmar, ao fim do primeiro poema, que “em inquietude, me preparo para a dor”. Vivendo em tempo de excessiva consciência metalinguística, é mais do que metalinguística a poesia de NMF, pois ela processa seus principais fluxos semióticos justamente no âmbito da interdiscusividade; assim como acontece com sua obra plástico-visual, cheia de uma consciência discursiva. Ela luta contra alguns dos nossos mitos mais persistentes, enquanto endossa outros, e assim flerta com a morte e a vida das imagens, onde se ganha e se perde sentido: “não sei se fui sempre corrompido / para ter afeição pelos teus olhos enluarados”. Daí que sua poesia se encontra numa verdadeira cruz das almas, tendo de um lado as almas canibalescas da sociedade pop-massificada, e de outro as almas mais inocentes e sombrias dessa mesma encruzilhada: “plantarei rosas selvagens / em teu rosto todas as noites / para te induzir ao beijo / arcaico do veneno / nu de minha boca amora”. Nelson busca em seus versos justamente essas almas sombrias, que misturam Ian Curtis, Nick Cave, Patti Smith e Bob Dylan com William Blake, Rimbaud, Baudelaire e Francis Bacon. Mas também as almas inocentes, ao mesclar casas de avós com animais, Van Gogh com amores, anjos com beijos. Assim também se dá com as ilustrações sob a assinatura de Devarnier Hembadoom, onde vemos colagens de emblemas pop da cultura de consumo com figurações de amantes andróginos, angelicais seres com óculos escuros. É a essa atmosfera que me refiro como existente entre seus poemas e seu trabalho visual; são verdadeiras alegorias de nossos tempos definitivamente sem um lado de fora, sem escapatória, em que a transgressão de certos artistas foi tornada arquivo cultural e já migrou para o imaginário publicitário que produzimos e consumimos sem outra alternativa possível. Por isso a vida-e-morte dos seus poemas. Por isso a impressão de um interminável sonho atravessando-os como “ANOTAÇÕES SOBRE A CLANDESTINIDADE DOS SONHOS”, com amores melancólicos, metamorfoses animais, anjos e demônios, cidades fantasmas como inscrições dos desejos mais inquietos a esse mundo de referências prontas. É aí, no entanto, que vemos o pulo do gato tornado tigre, pois – se já estão prontas – NMF cultiva justamente o lado monstruoso disso tudo, como uma espécie de ritual de imolação: “os tigres chegaram. / sonhos cobrem tua vasta cabeleira / ornada de cambraia. / dilacero pétalas nos tigres / lágrimas as mais tristes sobre a face. / (…) / contra as ondas escuras singraremos, / os tigres chegaram / com os cascos das unhas descendo pelo peito”.

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