SOBRE “FORMAS DE CAIR”

resenha alexandre furtado abr 12

QUANDO O CENTRO HESITA (publicado na Revista Verbo21)

Para um tanto de poesia assim: nem tanto iniciação, simplesmente os primeiros olhos. E diante destes, o jogo de ideias e imagens, a confirmação de Borges sobre o poema bem realizado, o poema que promove processos de ampliação autoral.  Nesse ritmo, o livro de Sandro SO amplia leituras outras aos iniciados e aos que tiveram contato com sua poesia de primeira mão.

Formas de cair tem partitura peculiar, dividida em partes e delas certas noções de perda, de dúvida, às vezes espanto, outras encanto, não raro ainda, o traço da intimidade. Então, a primeira, intitulada “Romance Deformação”, avesso do Bildung Roman, “Romance de formação”, introduzida ao leitor pelos versos do poema “Psicologia do vencido”, de Augusto dos Anjos (“Eu, filho do carbono e do amoníaco, / Monstro da escuridão e rutilância”), uma epígrafe como aviso, a incerteza diante das travessias.

“Dialética negativa”, poema que, pelo título, remete à lógica tese-antítese-síntese (“não são brancos nem são negros, / não nos dão os seus segredos/ são a cruza do um com o dois/ não são o três que vem depois”), de soslaio desconfia da fórmula certa, sob suspeita, um lugar que é feito de entres, diálogos assimétricos e híbridos, coisas que fogem do padrão certo (“não são ricos nem são raros/não estão dentro nem fora/ são expurgos da memória”), portanto, o flerte com a recusa; a escrita e a leitura da poesia como um jogar(-se) em linguagens, sugerindo negar ou ir para além do esquema dialético de que tudo se fecha com uma tese.

Pelo contrário, os poemas nessa primeira parte reforçam a ideia da mistura, do desdobramento de tudo que se deita em solo híbrido. Em “arte do autorretrato”, e logo à mente Cecília Meireles – “Auto retrato”, ou James Joyce – O retrato do artista enquanto jovem, depois ainda, Dylan Thomas – O retrato do artista quando jovem cão, indica a construção identitária de um Eu lírico tecido numa instância cruzada (“uma mistura uma fundura/ uma montagem adúltera de tudo/ uma mistura muito funda / muito bruta muito puta/ mais do que madura/ parte punk parte nula ….. Face mestiça etnia postiça / massa de tudo/ falsa persona do próprio rosto”), tal lua cheia ao amante, plena de referências e expectativas, os significantes que se esgalham em várias direções.

Impotências do rosto” é um poema que fisga a leitura pela falta, pois o rosto sugerido não é forte como poderia ser. São palavras indicadoras dessa ideia: cindido, inacabado, morto-vivo, inimigo público n.1 e garatuja. O texto assim nos diz, “sujeito cindido/ traço de união/ entre contrários/ inacabado abismo/ morto-vivo/ inimigo público n.1/ dos bem nascidos – / sem direito a posse  e herança própria,” de alguém que se formaria por outro legado, espelho e reflexos. Se não for, o estranhamento vem pelo excluído, o desvio sugerindo outras heranças.

O tema surge outra vez em “Impressão do rosto”, onde o Eu Lírico ecoa – “a marca de mil pessoas/ com a marca de mil memórias/ marca do suaveduro nas mil histórias/ que se conta/ que se cose/ das mil desforras desgostos/ discursos sem orgulho ou usufruto/ para além do mil rostos que possuo,” a palavra “mil” como cifra refletida, um entrecruzamento dos discursos e seus desgostos, a articulação de contrários (“suaveduro”) e tudo que ressoa ou multiplica a história de tantos outros que podem aparentar tão somente uma expressão, e esta não garante a certeza de um rosto completo, pois o rosto em si, visível e refletido, também pode dar impressões, não sendo apenas uma.

Se antes a impressão do rosto atravessa o texto, em “Clandestino”, “repito meu destino assim/ em mim sem fim/ forço fronteiras/ não me detenho”; a impressão puxa o assunto das fronteiras e aponta para uma alternativa clandestina, àquela que resiste às proteções, às zonas de conforto. Termina o poema assim: “e toda a vida toda morte todo ofício/ é trabalho do corpo/ indeciso à difícil/ superfície da pele/ com a qual recuso ao dia e à noite / qualquer proteção de convívio/ com os bons os maus e/ com a tempestade”, remetendo à necessidade de outra vida. “Arquivo corrompido”, de composição entrecortada, cindida na palavra, na estrutura poemática, no ritmo, contém de início uma recusa, e, daí, o mote inicial do romance deformação, pois este poema de corpo fragmentado, partido em forma, significa a medida da leitura.

A segunda parte do livro, “Urbi et Orbi” é um convite ao urbano, com a mesma substância reflexiva de antes, nessa hora, incidindo sobre a identidade das coisas, principalmente sobre a cidade. É nesse ponto que a impressão de antes se torna certeza, a poesia de Ornellas se revela aos poucos reflexiva, a dimensão que se derrama praticamente em quase todo o livro, pelo que não é sonoro apenas, não se tratando de imagens apenas, mas o jogo que significa, vejamos “Carteira de identidade”. O poema expõe a cidade como uma espécie de não-lugar, o espaço que não salva, não basta, muito menos acalma como diz: “essa cidade não me salva/ nasci fora de suas fronteiras/ pai e mãe são meu medo/ dupla a derrota/ tatuada em meu corpo/ como cicatriz da história”. A cidade, contrário ao título do poema, não identifica sujeitos, todavia parece documentar seus desencontros. Em “mapa”, novamente, “cidade de olhos e ouvidos a vigiar estrangeiros/ se afogando nas águas que alagam rugas nos rostos”, uma dicção poética indaga sobre o que se é. A carta devia indicar, mas nada orienta como devia, o mapa é de outro uso, como devia a cidade a seu habitante; é um poema que insinua, como o ruído discreto quando escutado revela o que é feito de nós quando não estamos por aqui.

Seguem “city tour” e “casa corpo cidade”, em perspectiva urbana semelhante, costurados por imagens de ruina, perigo, pobreza, pedaços e perdas. Como Nicolas Behr, que descreve Brasília entre atropelos e quadras, arquitetura sob um céu azulíssimo, OrnelLas marca a cidade no poema por signos de deslocamento, o olhar crítico convidando aos fracassos e não às vitórias.

Não chegam a ser necessariamente intertextualidades comme il fault, mas lembrarão artistas ou figuras reconhecidas em alguns títulos, como é o caso de “hay que enternecer”, aproximando-se de Guillén e Guevara, também “tão perto tão longe”, do cineasta alemão Wim Wenders e “d’après Itabira”, de Drummond. Essas lembranças tecem outras referências e amortecem, pelo sorriso, a sensação de negação que traz por vezes a intensidade de alguns versos.

“Formas de cair” é a última parte do livro, não se trata de nenhuma alusão à queda de Albert Camus, La chute, mas à poeta portuguesa Luiza Neto Jorge, que escreveu “O poema ensina a cair”, como está na epígrafe. Como cair na vida, que em si não tem controle, não tem plano determinado e único; a reflexão sobre a vida é um contínuo exercício de dúvida, soa às vezes como se uma personagem de Virginia Woolf, em pleno fluxo de consciência, saltasse do livro e dissesse: with it, there’s no here and there, but what comes after, e de certa forma, ainda, continuasse: com a poesia que é quase a mesma coisa, a poesia é para além do poema. Por isso, cair no poema, mergulhar na poesia sugeriria certa incerteza, estranheza, indicaria uma forma de cair na própria leitura da vida e na leitura de si.

Então, avisa o Eu Lírico no começo, “Alguns diriam – caro amigo – / o mundo está à mercê / da vileza que põe a perder / monumentos belos gestos / devaneios eu você/  O sublime se esgarça – é verdade – mas a poesia – isso não diriam – está fechada na mão de quem / nada lucra da vida/ nada vale na guerra/ nada ganha na bolsa / prêmio nenhum alcança / além da própria mendicância …”;  realçando a pergunta sobre o valor da poesia no mundo. Olhemos mais de perto e de novo – “O mundo está à mercê – O sublime se esgarça – nada lucra na vida – prêmio nenhum alcança” – e como alertas ao estético, qualquer maneira de resistência à realidade vazia ou ao argumento de que seria quase inútil representá-la.

Dando continuidade, o poema pode ensinar ao leitor algo fora das vaidades, nada sério, o que se pode no chão da humildade. Além disso, o acervo de somas, “Muitos livros pela casa/ alguns mitos na cabeça/ pais devidamente mortos/ filhos se multiplicando/ som no máximo volume/ olhos que ainda dormem/ tudo muito perto e incerto”, as coisas mais comezinhas que retiram o grotesco e salvam o sublime que não deve se esgarçar, como se disse anteriormente. O poema ensina a cair com poesia nos punhos, a cair nas horas aguardando surpresas, cultivando silêncios, pois “A vida é sem par com chaves enfiadas/ nas fechaduras das portas / Abertas – no entanto – às partituras do improviso / aos tropeços e desvios do ritmo”.

Um livro assim, no melhor sentido, (des)concerta; nos ajuda a refazer caminhos de leitura, como se costuma dizer na tradição mística, “na tranquilidade da noite, na luz das manhãs”. São exemplos de como desditas são as perdas, refeitas as verdades, pois quando o centro hesita certamente são sentidos outros que aparecem, então, com eles, novas formas de cair.

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Alexandre Furtado é escritor e professor

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