MEMÓRIAS FUTURAS

Leio na famosa Vida e obra de Fernando Pessoa (história de uma geração), de João Gaspar Simões, uma carta do poeta a Ofélia, que depois de nove anos de silêncio volta a lhe escrever. Pessoa, então com quarenta anos, diz: “É pois a ocasião de realizar a minha obra literária, completando umas coisas, agrupando outras, escrevendo outras que estão para escrever […] boa ou má, que seja, ou possa ser”. Depois disso, nunca mais se envolveu sentimentalmente com ninguém. Que se saiba…

Tenho horror a listas, já o disse. Finais de ano, de décadas, de séculos, nascimentos, aniversários, casamentos, mortes, inaugurações, despedidas, contratações, demissões, lançamentos, batizados, amores, ódios, possuem listas. Lembro dos crônistas coloniais e suas intermináveis listas, cheias de intenções exotizantes e mostruosidades, retóricas e imaginárias, tão ao gosto dos homens que por aqui desembarcavam. Camões, Gôngora e Gregório também não escaparam dessa figura. Já Leo Spitzer lhe chamou perspicazmente “enumeração caótica”, com relação à literatura moderna. Do poeta espanhol, o famosíssimo soneto abaixo é exemplar nos tercetos finais:

Ora que a competir com teu cabelo
ouro brunhido ao sol reluz em vão,
e com desprezo, no relvoso chão,
vê tua branca fronte o lírio belo;

ora que ao lábio teu, para colhê-lo,
se olha mais do que ao cravo temporão,
e ora que triunfa com desdém loução
teu colo de cristal, que luz com zelo;

colo, cabelo, fronte, lábio ardente
goza, enquanto o que foi na hora dourada
ouro, lírio, cristal, cravo luzente

não só em prata ou víola cortada
se torna, mas tu e isso juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

Mais jovem, pratiquei, a título de exercício de estilo (penso hoje, por supuesto), a enumeração, tão admirada por mim em Jorge de Lima. Daí que hoje, num típico surto de juvenília aos quarenta, me proponho uma lista de livros por mim escritos (ou quase) que (ainda?) não viram a luz do dia (será que verão?). Decido listá-los como forma de exorcismo. Ou talvez exibicionismo fadado ao ridículo. Ou ainda talvez uma forma indexada de publicação. Quem sabe tudo isso e outras mais. Verdade é que não há nenhum amor à taxionomia em mim, por mais que ela sirva em certos momentos como forma de criar imaginariamente marcos autobiográficos. Nada além disso.

1) Um livro de ensaios teórico-críticos sobre o corpo e a escrita, que teve como origem minha tese de doutorado. Como a tese foi escrita em mania, tive de reescrever quase tudo para lhe dar alguma legibilidade. Até hoje não sei como a banca a aprovou. 

2) Um livro de ensaios inéditos sobre a performance poética no campo da palavra cantada, falada e escrita no mundo lusófono: trovadorismo medieval galaico-português, música popular brasileira, etnopoesia angolana de origem bantu em traduções para o português, o inglês e o francês, concretismo e poesia experimental portuguesa, etc. Destaco o ensaio enfocando a relação entre um disco de Tom Zé – Imprensa cantada – e a função do Segrel medieval.

3) Aforismos escritos durante a época aurea do Simulador de vôo, meu blogue anterior. Afinal, são muitos anos escrevendo diariamente – frequência hoje reduzida a breves e esporádicas notícias. Algo tinha que vingar.

4) Novo livro in progress de poemas.

5) Traduções do livro de poemas de um cultuado romancista e filósofo maldito francês da primeira metade do século XX.

6) Uma prosa romanceada, ou contos, ainda com 1/4 escrito.

7) Um diário de juventude que mantive em 1993 e 1994, ainda em Brasília, em tempos de dureza braba, sonhos fortes, descobertas inaugurais, amores e amizades de enorme intensidade. Vivia então na república de Padres holandeses na 905 Norte, estudava na UnB e estagiava no Serpro. Depois me mudei para a casa semi-abandonada do Laércio no Guarazinho. Lia Walden, do Thoreau, para me estimular um modo de vida materialmente estoico, e Pessoa, para me estimular a fé na literatura.

8) Artigos de opinião e resenhas de livros em jornais e periódicos não acadêmicos escritos ao longo de mais de 10 anos. Ainda por selecionar.

9) Meus desenhos feitos no computador.

10) …

Existem reconhecidamente – por autores, editores, críticos, jornalistas e demais envolvidos na “cadeia produtiva do livro”, como gostam de repetir os burocratas responsáveis por políticas públicas desse setor – 03 etapas de esforço na confecção de livros: produzir, publicar e divulgar. Cada vez mais as três irão se concentrar nas mãos do próprio autor, que com a liberdade corre o risco de tornar-se um preso a céu aberto.

Por isso, com esta lista, espero dar minha pequena contribuição a uma história das publicações futuras. Sem dúvida, uma forma de driblar a nova “cadeia” do livro.

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2 comentários em “MEMÓRIAS FUTURAS”

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