Lima Trindade, uma apresentação

A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair na autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais da sua época.

Antonio Candido, O significado de Raízes do Brasil

As palavras com que inicio este texto de apresentação de Lima Trindade e da sua literatura dão a percepção do que para mim representa esta tentativa de distanciamento do escritor e dos seus livros. São as conhecidas palavras iniciais de Antonio Candido, no seu famoso prefácio a Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Não que eu ache inocentemente que minhas palavras aqui estarão livres da “autocomplacência” que mestre Candido identifica em todo gesto de testemunho, pelo contrário, não quero aqui travestir a amizade que possuo com Lima Trindade de uma pretensa objetividade crítica, sobretudo também porque verifico que cada novo texto que Lima dá a público me revela ao mesmo tempo sempre um pouco mais de mim mesmo, fazendo-me compreender melhor o que tentarei aqui apenas esboçar para vocês. Acompanhei e acompanho a produção literária de Lima de um lugar que considero privilegiado, escutando-o às vezes praticamente em tempo real, e aqui vou lhe lançar um olhar enviesado, propositalmente caolho, pois conhecedor de muito do que se passou na coxia desses palcos e nos fundos dessas casas. Conhecedor de muito, não de tudo.

Nascido no ano de 1966, quando nos conhecemos ele era tratado por todos como Valdo. Muitos anos depois é que veio à luz o Lima Trindade, persona literária e pública, assumido após aquele encontro há mais de duas décadas, na varanda da casa do nosso então amigo Laércio, no Guará I, cidade satélite do Distrito Federal, onde Lima, sempre que pode, frisa ter nascido, crescido e morado, para se diferenciar dos bem-nascidos no Plano Piloto e dos políticos que o Brasil envia incessantemente para Brasília. Tanto o Valdo que conheci no Guará I, quanto o Lima Trindade naturalizado soteropolitano, que hoje escreve e publica livros e edita a Revista Eletrônica Verbo 21, trazem as marcas da geração a que pertencem, por, além de nascer, crescer sob os terríveis auspícios da Ditadura Militar. Uma geração que muitos chamam de Geração X ou também de Geração Perdida (o que seria um luxo enquanto alusão aos escritores norte-americanos que moraram em Paris no entreguerras: Hemingway, Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Henry Miller, entre outros), mas que é na verdade uma referência ao que alguns historiadores chamam de “a década perdida” do Brasil, isto é, os anos 1980 e sua mistura de abertura política, caótico reaprendizado da democracia, cultura de massas, crise hiperinflacionária e mirabolantes planos econômicos. Essas marcas, para mim, são fundamentais para entender um pouco da literatura de Lima Trindade e que tento resumir nesta ocasião, de alguma forma, em três palavras: crise, transformação e dignidade. Crise porque nascido, crescido e desperto para o mundo sempre sob o signo de um país em crise. Transformação porque essa é a lei narrativa da vida, desejada principalmente livre dos clichês que nos empurram cotidianamente e que dá a essa geração seu profundo sentido político. Dignidade porque nossa geração, nossos amigos em geral, e Lima Trindade em particular, crescemos sabendo o quanto a vida social brasileira facilmente pode nos levar a uma condição indigna, fantasiada sob as mais diversas auras.

Lima pertence a uma geração posterior à que lutou contra a Ditadura e anterior à que nos anos 1990 se caracteriza por um invejável – da minha parte – pragmatismo: político, profissional e literário. Não, Lima Trindade não é um escritor pragmático. Por mais que tenha estreado com dois livros quase simultâneos, por mais que ele tenha uma intensa vida social e literária, que seja amigo onipresente e pronto para uma conversa sobre leituras ou sobre coisas da vida, repito que não, Lima Trindade não é um escritor pragmático, mas um escritor apaixonado. Paixão essa que o fez esperar até os 39 anos para lançar-se à vida literária. Tanto o livro de contos Todo sol mais o Espírito Santo quanto a novela Supermercado da solidão são de 2005 e marcam sua estreia em livro como a de um escritor atento ao mundo da vida e às formas de contá-la.

Em Todo sol mais o Espírito Santo, primeiro livro de contos reunidos, a opção pelo conto se dá de forma natural. Pequenas narrativas em fragmentos, flashes breves e intensos, enredos contendo diversas meditações, do trágico ao escracho, recortes e espelhos morais da vida. Na releitura que fiz do livro para esta ocasião, me chamou a atenção o fato de os três primeiros contos terem crianças como personagens principais. “Onde Monteiro Lobato errou”, “A meia-sola do sapato” e “O autógrafo” são contos em que a memória do escritor e a memória da sua geração se confundem nos personagens. Seja o inexplicado desaparecimento de dois pais em certo momento da história do país, seja a rusga de um menino com seu pai ou a decepção de outro menino com um ídolo de futebol, esses jovens de Lima Trindade representam para mim – além dos anos de transformação, que são naturalmente os da infância e juventude – um período de tensões sociais e políticas. Se a criança é o personagem perfeito para representar a transformação, a família é uma conhecida forma de se alegorizar as relações sociais e políticas de uma sociedade, e as famílias, assim como muitos personagens dos contos de Lima Trindade, são dignas representantes de um Brasil que eu diria hoje começa a dobrar a página da história, pois são famílias que possuem doses bem medidas de ingenuidade, esperança utópica, algum tipo de desajuste e tensão, humildade misturada com arrogância e um tipo muito brasileiro de conservadorismo nos costumes. Características essas que também estão de um jeito muito natural na linguagem com que Lima Trindade se expressa, pelo menos nos seus dois primeiros livros. Além disso, nesse livro, Lima constrói representações que entendo como seu projeto artístico inicial. Em primeiro lugar, no conto homônimo do livro, “Todo sol mais o espírito Santo”, há uma bela e discreta descrição da descoberta sexual por parte do narrador. Em segundo lugar, no conto “O pecado de Santa Helena”, vemos um pintor cuja arte se confunde com sua própria vida, mesmo quando levada ao histrionismo. Esses dois contos me fazem considerar seu primeiro livro, além de um livro de aprendizado do conto, principalmente um livro de aprendizado de si como artista e aprendizado de uma ética.

Na novela Supermercado da solidão, lançada simultaneamente a Todo sol… em 2005, e para a qual tive a honra de escrever o texto da “orelha”, o compromisso de Lima Trindade salta para primeiro plano. Não como um observador clínico, distanciado, mas como um participante comprometido. Vejo Lima Trindade como um escritor da estirpe dos que tomam partido do homem, com seus desejos e paixões, com suas humildades e precariedades. O enredo e os personagens da novela nos são verossímeis principalmente pela humanidade que carregam. Essa co-estreia traz algo que afirmo aqui ser uma das grandes qualidades da sua literatura, a busca por personagens dotados de humanidade. Não a humanidade boboca, que se confunde com inocência, nem a humanidade dos psicologismos irreais. Bernardo e Cléo, principais personagens de Supermercado da solidão, possuem humanidade porque se esforçam para fazer valer seus desejos mais essenciais, e ao mesmo tempo mais precários, e por aí tentam vencer, ou conviver com, suas limitações e dificuldades, em meio a mudanças irreversíveis como o nascimento e a morte. Não consigo deixar de ler Supermercado da solidão como uma história de nascimento e morte. O título da novela marca o tom lírico de vidas cujos sentidos são cada vez mais negociáveis financeiramente. Sem grandes filosofias existenciais, políticas ou estéticas, a crise dos personagens é sempre anteposta a escolhas éticas que lhes compete fazer. E fazem. Escolhas à maneira de uma iniciação, que vejo também no próprio livro enquanto iniciação do autor. Nessas escolhas, temos, de um lado, Bernardo e sua doença renal crônica, que ele decide encarar com trágica dignidade ao se recusar a fazer do seu corpo precário mero item de uma troca financeira, o que o leva a viver com mais humanidade o fio de sua vida, pois a encara de frente e sem subterfúgios. De outro lado, Cléo e o futuro que se lhe abre junto com o bebê que carrega na barriga. Em ambos os casos, o acaso, em ambos os casos também, a escolha dos próprios destinos diante do acaso. Escolhas pela dignidade. Escolhas éticas. Escolhas trágicas. A literatura de Lima Trindade, em Supermercado da solidão, apresenta ao leitor dilemas simples, embora fundamentais, da vida como ela é. Nada de realismo ou neorrealismo. Sim uma literatura que pensa o homem. Vêm-me à cabeça alguns nomes de escritores do passado que assim pensaram e escreveram, inserindo Lima Trindade em uma determinada linhagem. Mas prefiro calar e deixar que cada um dos presentes faça suas próprias conexões de leituras.

Dois anos depois desta dupla estreia, Lima nos dá seu terceiro livro, segundo de contos, que vejo funcionar um pouco como ratificação do seu trabalho literário e do seu perfil como escritor. Com Corações blues e serpentinas, do ano de 2007, percebe-se um maior apuro com a paisagem soteropolitana, que já aparecia, ainda que timidamente, em Todo sol… Sem querer fazer-se – penso eu – escritor baiano, brasiliense ou de qualquer outro tipo além de brasileiro, Lima Trindade ambienta seus contos em lugares tão variadas quanto Salvador, Guarapari, Brasília ou o Sertão, fazendo uma literatura cosmopolita contra o provincianismo da cor local e do “típico”. Um cosmopolitismo afetivo, pois vai além de um mero exercício referencial. “Noite num hotel da Asa Norte”, “Anjinho barroco” e “Praça da Liberdade” são três contos exemplares desse afeto em Corações blues e serpentinas. Seu olhar é sem deslumbramentos e clichês, mas com uma irresistível paixão pelas ruas, personagens e tipos que deseja descrever, mesmo os mais obscuros e pouco badalados, eu diria sobretudo os mais obscuros e pouco badalados. Penso aqui no conto “Queen Sally II”, em que uma travesti das ruas do Comércio narra seu cotidiano de sonhos, sofrimentos e desamor. Nesse mesmo conto, também percebo algo que ganha notável força no terceiro livro, algo que também já existia em sua literatura desde o início, mas cujo perfil se torna mais nítido. A escrita de Lima Trindade assume uma maior conotação pop. Se o pop está nas referências da cultura de massas que fazem parte da geração dos anos 1980, por exemplo do rock de Brasília que o Valdo tanto gosta de cultivar e reafirmar como influência, pop também é o desejo de ser legível e inteligível para uma massa alfabetizada pela escola, mas educada pela indústria cultural, criando-lhe pontos de referência em meio às narrativas com enredos e personagens de um lirismo simples e kitsch, sem deixar de ser pungente. Eu diria mesmo que é justamente por aí que Lima Trindade caminha agora, quando penso nos contos publicados na antologia da Geração Zero Zero, deste ano de 2011. Por fim, destaco ainda em Corações blues e serpentinas a ampliação do seu aprendizado ético, pois o amor gay se torna mais evidente tanto como tema-chave do livro, quanto sob a forma do lirismo de muitos dos contos. Esse amor que já ousa dizer seu nome é notável em textos como “Amor inconsútil”, “A primeira vez”, “Céu fatiado de azul”, “Três movimentos para um selvagem desamor”, dentre outros. Se o amor é sempre um tema íntimo da crise e da transformação, é na dignidade que encontro a finalidade desse amor, reafirmando o que a literatura de Lima Trindade traz consigo, quase à maneira de uma militância, no entanto sem qualquer palavra de ordem, com naturalidade e sensibilidade literárias.

Engraçado, não consigo deixar de ver através da literatura e da própria pessoa do Valdo que o engajamento dessa geração se dá sob formas não institucionalizadas. Sempre acusada de alienada politicamente, quando leio as histórias de Lima Trindade percebo mais claramente que seu engajamento acontece através da criação literária e na própria criação literária, na qual para ele o fazer literário é necessariamente um ato político, ainda que como aprendizado de uma ética. É nesse engajamento ético que Lima Trindade politiza sua literatura. Aprendo sempre mais disso convivendo com ele, conversando com ele, lendo-o. Seu modo de circular publicamente e sua literatura fazem par com esse aprendizado ético e – incluo agora – com essa espécie de pedagogia que ele oferece de forma cotidiana aos que travam do seu convívio e que, afirmo, ainda tem muito a dar.

Daí, concluo. Se me recusei a dar possíveis referências e influências literárias na escrita de Lima Trindade, não me recuso a dedicar este texto – primeira leitura mais detida que faço de um escritor que vi nascer – a três amigos nossos que estiveram permanentemente em meu horizonte enquanto escrevia o que escrevi sobre ele: Nelson, Grazielle e Sidney Paulino. Amigos que o Valdo não se importará que eu traga aqui, muito pelo contrário, pois também sei que fazem parte importante da sua vida como escritor. Amigos de sonhos geracionais, da geração a que tanto me referi. Esses três amigos compartilharam com o Valdo muitos dos anseios presentes do Lima, na associação entre vida e literatura, que tanto faz parte do seu perfil como escritor e que aqui tentei de alguma forma definir como o de quem se coloca perante o mundo para olhá-lo e narrá-lo, sempre atento ao que há de ético nas escolhas literárias.

Salvador, setembro de 2011

Texto lido na Fundação Casa de Jorge Amado, Salvador-BA, como apresentação do escritor.

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8 comentários em “Lima Trindade, uma apresentação”

  1. Lima Trindade e bastante querido, competente e sincero, é o nosso muito querido Vivaldo Lima Trindade. Agradeço pelo existência deste ser tão Humano.

  2. Não chega a ser um comentário, somente deixar um elogio sincero a Ornelas de quem não conhecia ainda nenhum texto e tesatemunho, com esta apresentação ao nosso querido e talentoso Lima Trindade, um escritor de grande poder de expessão e elegãncia de estilo que justificam a estima em que o têm seus amigos pelas referências nas quais os escuto se expressar. Limão você já tem uma história literária, Grande beijo de profunda amizade. Gláucia.

  3. Lima Trindade, você e um grande escritor, não tenha duvida,acompanho suas
    obras, vejo seus trabalhos autenticos, não podia perde está oportunidade de declara, q vc é cara legal grande cidadão, humilde, camarada, amigo, bacana,
    é bom colega de trabalho, vc, sim é ocará. valeu amigo bote fé.

  4. Beleza de texto, Sandro. O Lima, além de grande escritor, é um grande editor – faz um belo trabalho na Verbo21 – e uma grande pessoa. Abraços, para os dois.

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