o que insiste

 
Ouvir uma canção e sair para a rua.
Uma premonição invade o campo
de gravidade do corpo.
Afeito a solidões e delicadezas.
Deparar-me com o risco do crime,
com o risco da palavra que nada diz,
que nada fala ao labirinto
deste país de sonho e violência.
 
Escrever este poema, qualquer poema,
não traz salvação a minha vida. A nossas.
Ele é apenas antessala do que insiste,
apesar de a thing of beauty
que alguns carregam.
Ele é apenas a queda vertical,
em busca da coluna do real,
ou da fome caída nos meio-fios.
 
Não professo nada, mas desejam
diariamente minha benção.
Infiel a mim mesmo.
Traidor. Clandestino. Culpado.
Carrego meu esqueleto como uma bandeira
rota. Desfraldadas as ilusões
nos incensos da cremação.
Fabulosa é toda dádiva desenganada.
 
Apenas assim encaro o que resta
de humanidade matutina em mim.
Depauperada, a vida se acostuma
à violência desta terra. E, canibal,
imita a sobrevivência dos insetos
em devastados canteiros públicos.
Diante deles moramos em casas
feitas do temor pelo que insiste.
 
No canto mais sórdido do corpo
despejamos resíduos de amores e poemas,
à espera de que Deus, ou a vida orgânica,
elimine a exasperação de nós mesmos.
Aquilo que insiste, talvez não seja
tão mal assim, rasteja nesses cantos.
A começar pelo depósito fatal
em que transformo tantas folhas brancas.
 
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2 comentários em “o que insiste”

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