onde achar a dádiva

Repenso o que escrevi: os circuitos comunicacionais da literatura se diversificam nos dias que passam e sempre existirão alguns espaços perversos para formas de comunicação transgressoras do sentido, da lei e do sagrado. É por esses espaços que caminha o sentido esgarçado da poesia, contraposta à lógica venal da prosa e da mídia: só existe troca (política, linguística e econômica) se houver gratuidade a quebrar-lhe o sentido de negócio; o discurso gratuito do nonsense é que faz existir como dotada de sentido funcional a comunicação; só haverá alguma paz simbólica se houver espaço para práticas violentas simbolicamente. Uma sociedade sem perversões não simboliza mais a violência em jogos de sentido/nonsense, lei/transgressão, sagrado/profano, como são  as perversões (linguísticas, sociais, sexuais), e descamba para a violência efetiva de todos contra todos, para a desconfiança generalizada e para a paranóia e o sentimento persecutório. Se há algum sentido cultural em se ler-e-escrever poesia é o de tentar manter esse equilíbrio, que hoje parece tão fragilizado, quando não perdido. É na e pela poesia (escrita) que se infiltra em nosso tempo de mercado-&-arte o dom da perversão.

Isabel de Sá
Fonte da imagem: Blogue da Isabel de Sá
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