POSSÍVEL RESPOSTA À PERGUNTA-CLICHÊ: “POR QUE VOCÊ ESCREVE?”

Em meu desalento, meu absurdo imaginou um meio para formular exatamente a dificuldade que encontra a literatura. Eu imaginei seu objeto, a felicidade perfeita, como um automóvel correndo num estrada. Primeiro, eu emparelharia com o automóvel pela esquerda, à velocidade de um bólido, na esperança de ultrapassá-lo. Então, ele aceleraria mais e me impediria pouco a pouco de fazê-lo, afastando-se de mim à potência do seu motor. Exatamente esse tempo da sua arrancada, que revela minha impossibilidade de ultrapassá-lo, e depois, de segui-lo, é a imagem do objeto que o escritor persegue: o objeto só é seu à condição, não de ser capturado, mas, no extremo do esforço, escapar aos termos de uma tensão impossível. Ao menos, na arrancada de um automóvel mais rápido, eu atingi a felicidade que me teria no fundo escapado se ela não me tivesse, segundo a aparência, excedido. É que o automóvel mais forte não capta nada, enquanto o automóvel mais fraco, que o segue, tem consciência da verdade da felicidade no momento em que  mais rápido lhe dá a sensação de estar recuando. Na verdade, foi somente através do sonho que tive acesso a esse momento último de lucidez: o sono dissipado, reencontrei sem transição a inconsciência incerta do estado da véspera.

Georges Bataille. O padre C. RJ, Relume-Dumará, 1999, p. 52

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