EPITÁFIO

O que mais me agrada em Tristan Corbière (1845-1875) é o que me agrada em Manuel Bandeira: um riso e uma autoironia que, se no primeiro são muito mais sardônicos e no segundo mais melancólicos, são efeitos de poemas exemplares para quem acha que andamento, cadência e ritmo em poesia só são encontrados em solenes versos altissonantes. A tradução abaixo, encontrada na internet, é dita como sendo do Augusto de Campos. Não fui conferir, mas as “liberdades” tradutórias são típicas dele.

EPITÁFIO

Matou-se de paixão ou morreu de preguiça,
Se vive, é só de vício; e deixa apenas isso:

— Não ser a sua amante foi seu maior suplício. —

Não nasceu por nenhum lado
E foi criado como mudo.
Tornou-se um arlequim-guisado,
Mistura adúltera de tudo.

Tinha um não-sei-que, — sem saber onde;
Ouro, — sem trocado para o bonde;
Nervos, — sem nervos; vigor sem “garra”;
Alma, — faltava uma guitarra;
Amor, — mas sem bastante fome.

— Muitos nomes para ter um nome. —

Idealista, — sem idéia. Rima
Rica, — sem matéria-prima;
De volta, — sem nunca ter ido;
Se achando sempre perdido.

Poeta, apesar do verso;
Artista sem arte, — ao inverso;
Filósofo — vide-verso.

Um sério cômico, — sem sal.
Ator: não soube seu papel;
Pintor: dó-ré-mi-fá-sol;
E músico: usava o pincel.

Uma cabeça! — sim, de vento;
Muito louco para ter tento;
Seu mal foi singular de mais.
— Seus pés quebrados, pés demais.

Avis rara — mas de rapina;
Macho… com manha feminina;
Capaz de tudo, — bom para nada;
Com certeza, — por certo errada.

Pródigo como o filho errante
Do Testamento, — herança vacante.
Rebelde, — e com receio do lugar
Comum não saía do lugar.

Colorista sem cavalete;
Incompreendido… — abriu o peito:
Chorou, cantou em falsete;
— E foi um defeito perfeito.

Não foi alguém, nem foi ninguém.
Seu natural era o ar bem
Posto, em pose para a posteridade;
Cínico, na maior ingenuidade;
Impostor, sem cobrar imposto.
— Seu gosto estava no desgosto.

Ninguém foi mais igual, mais gêmeo
Irmão siamês de si mesmo.
Viu-se a si próprio ao microscópio:
Micróbio de seu próprio ópio.
Viajante de rotas perdidas,
S.O.S. sem salva-vidas…

Muito cheio de si para aturar-se,
Cabeça “alta”, espírito ativo,
Findou, sem saber findar-se,
Ou vivo-morto ou morto-vivo.

Aqui jaz, coração sem cor, desacordado,
Um bem logrado malogrado.

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