ESCREVER, AINDA

Fica ainda uma pergunta: para que, em suma, quero eu escrever? Se não é para um público, não poderia recordar tudo mentalmente, sem lançar mão do papel?

Assim é; mas, por escrito, isto sairá, de certo modo, solene. O papel tem algo que me intimida, haverá mais severidade comigo mesmo, o estilo há de lucrar. Além disso, é possível que as anotações me tragam realmente um alívio. Agora, por exemplo, pressiona-me particularmente uma remota recordação. Lembrei-me disso com nitidez há poucos dias e, desde então, ela ficou comigo, qual um motivo musical magoado, que não nos quer deixar. E, assim mesmo, é preciso livrar-se dele. Tenho centenas de tais recordações; mas, de tempos em tempos, uma dela destaca-se das demais e passa a pressionar-me. Não sei por quê, mas acredito que se eu a anotar, há de me deixar em paz. E por que não tentar?

Finalmente: estou enfadado e, no entanto, permaneço sem fazer nada. E o ato de anotar é de fato como que um trabalho. Dizem que o trabalho torna o homem bom e honesto. Bem, aí está pelo menos uma probabilidade favorável.

[Fiódor Dostoiévski, Memórias do subsolo. SP: 34, 2000, p. 54.]

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3 comentários em “ESCREVER, AINDA”

  1. Gosto das suas poesias e dos ensaios que vc. escreve, sei que é muito ocupado, mas procure escrever mais.

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