DE LETRAS E HOMENS

Quem ama literatura, leitura e/ou livros decididamente não é um apaixonado pelos homens.

atravessando o deserto

Se parece de certa forma verdade que a leitura revela muito sobre a desconhecida alma humana, principalmente sobre o que há nela de repugnante, a frase acima refere-se, antes, ao perfil de quem acaba encontrando na literatura, leitura e/ou livros um meio de abstração e sobrevivência ao convívio com os homens. Talvez por isso o adiamento, a câmera lenta diante do inevitável fim de algumas leituras que desejaríamos infinitas. Como no título de Blanchot. Como abandonar essa espécie de anacorese?

Há textos que atiçam para a rua, como uma premonição. Que, todavia, nunca se realiza. Mas ele vê os livros sempre como um deserto. Seu deserto. Que percorre sabedor de nunca encontrar água para matar a sede. Sede pessoal (“escolheste o deserto / não grites por água”, lia sempre em Ruy Duarte de Carvalho, especialista em desertos, transumâncias e palavras). Como quando deu a primeira aula sobre FP. Como organizar e transmitir aquilo que lhe era tão físico, sem ser simplesmente narcisista? Como falar de uma cicatriz como algo que lhe é objetivo, exterior, que não lhe está encravado na carne? À semelhança do que lia das novelas de JGN e nos poemas de HH? Como ensinar o silêncio num sistema educacional, social e político tão falastrão?

Ele lia aí justamente que não se ensina uma travessia dessa ordem, pois que nela se está por completa misantropia e vontade de silêncio. Essa encruzilhada talvez seja o seu deserto. A sua travessia escolhida. O seu poema contínuo. A sua loucura. Junto dos homens.

Le silence, de Auguste Preault
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