PROSA POPULAR BRASILEIRA

Janete Clair e seus personagens de O Astro

Palavra cantada, hoje parece bastante óbvio para vários (não todos) o fato de que a música popular é também uma forma de poesia, tão digna de ser estudada quanto a poesia escrita. Vários estudiosos acatam essa tese como absolutamente razoável, diante do trovadorismo medieval e de outras tradições de palavra cantada que entraram para a história da literatura escrita por deixarem sobretudo suas letras impressas, já que pouquíssimas foram as partituras.

O que me incomoda é que quem aceita essa relação óbvia e necessária ao Brasil (e não só) não aceita de forma alguma que – assim como os poetas da música popular estão à altura dos grandes poetas da literatura escrita e merecem por isso ser estudados – os autores de novelas e roteiristas de cinema merecem ter seus textos lidos e estudados da mesma maneira como se gasta quilos de páginas e saliva sobre Grande Sertão: Veredas, A hora da estrela ou Dom Casmurro. Agnaldo Silva, Janete Clair e Dias Gomes são os grandes escritores brasileiros desde os anos 70, e não Rubem Fonseca, Ligia Fagundes Telles e João Ubaldo Ribeiro, para ficarmos com três.

Bentinho, Capitu e o filho-cara-de-Escobar, personagens de D. Casmurro

E o preconceito é ainda maior se pensarmos que todos, inclusive o mercado editorial, se recusam terminantemente a editar, ler e estudar o texto escrito desses grandes autores brasileiros, os mais lidos, os mais comentados, os mais mobilizadores das dores e delícias da nossa população. Essa é a nossa real literatura. Com a nossa cara. Evitar-se-ia muito suor e frustração de professores se ao invés de se estudar o difícil e excessivo Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, estudássemos as poéticas letras de Cartola, assim como ao invés de lemos as páginas delirantes de Perto do coração selvagem ou Vestido de noiva, lêssemos as páginas cruéis de Dancing days.

Daí que me arrepio quando ouço dizerem que podemos prescindir da partitura e da teoria musical para estudarmos a poesia das letras e não podemos ignorar as imagens, a edição e a montagem do cinema e das telenovelas para apreciarmos os seus textos e diálogos, que prendem milhões diante das televisões brasileiras há décadas. Puro preconceito.

 *

O texto acima é uma ode a esses tempos mais-reais do que o rei, de valorização da “cultura popular”, de tudo o que o “povo” quer, o “povo” gosta, o “povo” ama, o “povo” sabe, o “povo” produz e consome. Ou seja, a valorização do mercado. Alguns dos eventualíssimos leitores deste blogue perdido na dantesca selva selvaggia da blogosfera podem achar um texto irônico. Longe de mim. É apenas um texto que tenta dar alguma coerência, para mim mesmo (e que compartilho dentro das possibilidades circunstanciais de espaço), a uma idéia bastante popular entre nossa intelligentsia tropicaos.

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2 comentários em “PROSA POPULAR BRASILEIRA”

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