SPLEEN ET IDÉAL

Não costumo fazer isso, escrever direto no blogue. Talvez pelo hábito – mau hábito – de gostar de ver a página em branco à minha frente. Daí que só me encontro me perdendo sur le vide papier que la blancheur defend, como escreveu Mallarmé, o padre niilista da poesia moderna. Mas como este blogue – que criei num rompante e principalmente fastio com o antigo simulador de vôo – estava há algum tempo sem ser preenchido com algo que valesse a pena que o escreveu, resolvi fazê-lo por puro horror vacui (haverá, no entanto, maior vazio do que se saber escrevendo sobre uma tela de cristal líquido? Cristal líquido, vejam vocês o espírito dos nossos tempos líquidos…), sem saber se a pena valerá ou apenas se dará ao muitíssimo eventual leitor.

Fato é que ando improdutivo nesses tempos pós-reais. O culto à preguiça devia ser estimulado com um dos nossos maiores e mais caros bens. Mas não duvidem: rapidamente criariam commodities para a bolsa lucrar com a lassidão dos outros. Uma escravidão às avessas – com o senhor enriquecendo através da leseira alheia. Digo isso porque ando muitíssimo interessado em atividades improdutivas. E nelas não incluo ler ou escrever, que para mim às vezes parecem ter se tornado trabalho no mais estrito sentido de sobrevivência material.

Quando ouço em tempos de atos ilocutórios eleitorais (valei-me são J. L. Austin) a palavra auto-sustentabilidade, a primeira coisa que me ocorre é tentar reduzir meus gastos e necessidades. Se carro é algo que eliminei há anos, hoje exercito eliminar a necessidade de informação. Para quê, se quanto mais leio jornais, sites e blogues mais entendo a absoluta falta de sentido de tudo o que discutem e informam? Afirma-se com toda a razão que acadêmicos escrevem para si mesmos. C’est vrai. Mas isso todos fazem nos dias passam. Se os próprios jornalistas alimentam e discutem infinitamente notícias que só interesam a eles próprios e aos meios diretamente interessados, entendo que a esfera pública habermasiana, com suas instituições autorizadas, agoniza a olhos vistos, debatendo-se caída à nossa frente.

Então me divirto mesmo é com a improdutividade, observando lesa e melancolicamente o mundo à minha volta, entre a agonia moribunda e o delírio de violência. E peço licença para ir ali, respirar a brisa marinha:

BRISE MARINE

La chair est triste, hélas! et j´ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir ! Je sens que des oiseaux sont ivres
D´être parmi l´écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retriendra ce coeur qui dans la mer se trempe
O nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l´ancre pour une exotique nature!

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l´adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu´un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots…
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!

BRISA MARINHA

                             Tradução:  Augusto de Campos

A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração  de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
Este papel vazio com seu branco anseio,
Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.
Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,
Ergue a âncora em prol das mais estranhas plagas!

Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre ondas más,
Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem mas-
Tros, sem mastros, nem ilhas férteis a vogar…
Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do mar!

O poema é do Mallarmé, mas o título do post vem obviamente do Baudelaire, cuja foto abaixo para mim é a dele que melhor representa o spleen et idéal das Flores do mal (pós-)moderno.

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