PEDRA E LÁPIDE – GRAFIA E VERSÃO

O TEXTO DE JOÃO ZORRO

Levando ao limite, homenagem, o gesto da escrita, posso atribuir os meus textos

a joão zorro. Existimos sobre o anterior. O movimento da escrita e da leitura

exerce-se a partir da menor mutabilidade aparente da pedra

e da maior mutabilidade da grafia. O progresso dos textos

é epigráfico. Lápide e versão, indistintamente.

[Fiama Hasse Pais Brandão, Era, 1974]

Escrever a própria poesia (grafia e versão) é ler a poesia alheia do passado (pedra e lápide); ler obliquamente, levado pelo desafio (da emulação, da laudatória, da paródia, do pastiche, do diálogo e do intertexto) e pela imaginação (realista ou não). Arte e engenho. E ler a poesia alheia é ler uma avassaladora máquina de inscrição da memória cultural: nações, raças, sujeitos, sexualidades e afecções diversas são tópicos permanentes da tradição lírica, que são somados a outros, próprios de cada tempo histórico. Ler a poesia alheia e passada também é ler os suportes mesmos de impressão dessa memória poética, no limite, os corpos – individuais, históricos, políticos – que os sujeitos vestem com seus discursos. Escrever poesia, portanto, é discutir esses corpos, lê-los entre o canto público da epicidade e a experiência privadamente fingida do lírico, entre a tradição trágica e a tradução dramática, entre o eu e o outro. Se a poesia é uma escrita e simultaneamente um saber de si, ela – por esse saber – se dobra no espaço público do mesmo como uma escrita e um saber do outro.

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