PARA LEMBRAR E ESQUECER

Em tempos de usos da memória como os de hoje, a poesia lírica deveria estar na crista da onda (com o perdão do terrível anacronismo), pois é onde o trabalho com a memória acontece por excelência. Não apenas a memória do poeta, memória individual, íntima & pessoal, mas memória coletiva, nas suas várias formas. Memória afetiva – como toda memória, pois o que não nos toca simplesmente é esquecido.
 
Daí que um livro como Ticket Zen, de Kátia Borges, recém-lançado, tenha tanto a dizer. Nele encontro a memória lírica do romantismo, que diz “(…) // Tarde demais para apanhar o último coletivo / e descer no ponto longínquo / no qual a infância aguarda. / (…)” (“Insônia”), a memória do futuro, que diz “Eu poderia amar esse menino insolente” (“Uma infinidade de coisas”) no futuro do pretérito, uma memória pós-lírica (cf. Paulo Henriques Britto), nas inúmeras epígrafes e algumas citações diretas de poetas, como que a dialogar com seu passado literário, uma memória coletiva, que traz para junto o leitor no reconhecimento de referências em “Venho de um tempo sem telefone móvel / – o Bahia ainda era time. / Um tempo de vitrolas com agulhas de diamante / e cachaça Saborosa. // (…) // Eu venho de um tempo imóvel” (“A cidade”) e, por fim, uma memória histórico-cultural em “Todo mundo traz em si / o menino de Braunau / em um bunker imaginário” (“O pequeno Hitler”). Usos da memória pela poesia lírica.
 
Mas em tempos de usos da memória há os abusos da memória, que fazem como que a experiência desse excesso de lembrança seja friccionada à melancolia e à vontade de esquecimento. Há inúmeros exemplos de melancolia explícita no livro de Kátia. Mas vou citar mesmo é o poema que me fez organizar essas idéias ainda demasiado soltas. Poema homônimo do livro – “Ticket zen”:
 
Esquecer o passado é a melhor forma
de equilibrar os pratos e caminhar
nesse arame fino, fio de cobre, sobre o mar.
 
Esquecer o passado é esquecer-se de olhar
para baixo. É a melhor receita de bolo,
para não solar, é a melhor receita
 
mesmo se não dá para ancorar
o seu navio no espaço.
 
Nota: escrevi uma resenha sobre o livro anterior de Kátia Borges, publicada aqui.
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