DOENTE, O POETA MEDITA SOBRE IDAS AO MÉDICO

O que fazer diante da inevitabilidade de uma ida ao médico? Pôr-se a amá-lo como se fosse nossa cara-metade, nossa mais intensa paixão, nosso amor eterno. Depositamos humildemente nossas vidas nas suas mãos, e o pagamos por isso. O dinheiro dele vale esse trabalho; nossas vidas também. Nosso medo se irmana àquele do amante, que Luis Vaz excepcionalmente lembrou na sua famosa redondilha: “Aquela cativa / que me tem cativo / porque nela vivo, / já não quer que viva“. Relações amorosas e relações sociais são duas faces da mesma relação tauromáquica de vida-e-morte.

Idas ao médico como casos de amor,
ninguém sabe ao certo a forma da dor.

Eu, por exemplo, não tenho amada
que se encante pela minha doença.
Uma consulta desandou anteontem
       pela fé surrealista da mulher
no automatismo inconsciente dos atos
falhos.
              A sabedoria diz, por outro lado,
não se deve amolar a faca
       com demasiada paixão,
sob o risco de se desfazer o fio
como a fé que deixa o fiel na mão.

Mas o que digo eu? Que fazem
médicos, amores, facas, fiéis
       em um mesmo poema?
Será isto confissão ou confecção?
É tanto reza quanto perdição.
       É tanto festa quanto oração.
É tanto pó quanto paixão.
       É tanto cura quanto dor?

Depois de tudo avaliar, me abandonei
à medicina como quem se entrega ao amor.

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