NENHUM OLHAR

(…) Penso: um castigo é a vida, um castigo sem falta ou pecado, um castigo sem salvação; a vida é um castigo que não se impede e que não se consente. Imagino-te a ver esta noite da varanda dos meu olhos, a entrares nesta floresta de mil estrelas por contar, estas estrelas que não chegam para iluminar a terra, mas que iluminam pequenas circunferências de céu à sua volta. Imagino-te a ouvires-me enquanto se calhar embalas o menino com essas cantigas comque o teu pai, quando eras pequena, te adormecia e que assobiava no telhado à tarde.

(…) Os anos apagar-me-ão, vais ver. E isso não me entristece, porque sempre soube que seria assim. Mas, é preciso dizer-te, nunca quis deixar-te sozinho. Se o fiz, não o quis fazer. Alegre, pequeno filho bonito, livre. Entrei agora na vila. Olham-me as pessoas com boas noites arrastados. Sei que és muito novo para entender tudo o que te quero dizer, mas ao menos a palavra pai, de tudo isto, quero que recordes a palavra pai. Quero que me olhes nos olhos, mesmo quando já tiver desaparecido há muito e partilhe com a terra a sua solidão; quero que me aprendas e descubras o que pensei para ti nesta noite. Estou no terreiro. Entro na venda. Num lado do balcão, o sorriso do demónio No outro, o gigante dobrado com a cabeça no tecto.

[Do português José Luis Peixoto, no romance Nenhum olhar, pp. 55-6]

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