FORÇA (I)MORAL E AUTO-INDULGÊNCIA

Há algo de terrivelmente assustador e contemporâneo (assustador porque contemporâneo) para mim nos romances Viagem ao fim da noite e Morte a crédito, de Louis Ferdinand Céline. Trata-se menos das impactantes histórias semi-autobiográficas e mais do fato de que aquilo que tanto me lembra nosso mundo atual foi escrito por um doentio anti-semita nos anos 30, com mania de perseguição e que segundo testemunhos punha Hitler no chinelo em matéria de ódio e loucura. Nunca li seus panfletos anti-semitas, mas os romances são exemplares do grande estilo modernista, exalando miséria social, econômica, moral e paranóia por todos os poros. Por um lado, o mesmo rancor e violência da vida nossa de cada dia, por outro lado, o vigor e o estilo que fazem inveja à literatura hiperrealista de hoje e seus clichês de “verdade”, venha de onde vier, da “burguesia” ou da “periferia”. É aquela história de que nenhuma outra literatura pode nos representar melhor que a nossa contemporânea, mas quando a olhamos constatamos a nossa precariedade. Se antes havia uma vida violenta e homens fortes, hoje a vida continua violenta, mas os homens tornaram-se fracos e auto-indulgentes. Em tempo: Céline era contemporâneo de Graciliano Ramos.

***

É preciso passar por isso para saber como o desespero persegue a gente, atravessando as tripas e chegando até ao coração…

Muitas vezes, eu encontro, agora, uns desgraçados reclamando da vida… São idiotas, sem horizontes, colegas humildes, fracassados… Uns veados! A revolta deles não muda nada… é infundada… Uma chorumela…

Não sei de onde ela vem… talvez, quem sabe, do Ginásio… Mas é conversa fiada, que o vento leva. O verdadeiro ódio vem lá do fundo, vem da mocidade perdida no trabalho ingrato. Este, sim, é um sentimento que mata. É tão enraizado que dura o resto da vida, derramando seu veneno sobre a terra, crescendo entre mortos, entre os homens.

Todas as noites, quando eu chegava em casa, a velha me perguntava se eu já tinha sido despedido… Estava sempre à espera do pior. Na hora da sopa, tocava-se de novo no assunto, que era inesgotável! Quando é que eu ia, enfim, ganhar a vida?…

De tanto ouvir falar naquilo, o pão tinha-se transformado em uma obsessão para mim. Não tinha mais coragem para pedir um pouco mais. Engolia depressa, para acabar logo. Minha mãe também comia às carreiras mas, mesmo assim, se irritava comigo:

“Ferdinand! Você quer mais?! Você nem está vendo o que come! Engole tudo sem mastigar! Parece um cachorro! Deixe ver com que cara você está! Veja só! Você está transparente! Verde!… Como é que a comida pode fazer-lhe bem? A gente faz o que pode, mas você põe a comida fora!”
[Morte a crédito, p. 137-8]
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