POSTAGEM 33

Escrevo a pé. A caminho do ponto de ônibus, onde um poema me aguarda indefectível. Não falo da experiência poética, da poesia que preenche instantes de intensidade. Falo do poema como arte da linguagem, montado do contato ruidoso com o mundo para a produção desses silêncios singulares que alguns tão bem conhecem. Se no ponto de ônibus soubessem que escrevo, já não seria possível esse ou qualquer poema. Para ele, é necessário ser invisível. Poetas visíveis são uma impossibilidade – hoje e sempre. Os verdadeiros poetas públicos não são vistos nas ruas, por mais que sempre estejam nelas. Os verdadeiros poetas públicos levam a rua consigo onde quer que estejam e aonde quer que vão. Os verdadeiros poetas são a própria rua. A figura pública do poeta anda sempre de ônibus, circula entre os bairros da cidade com a mão atenta e os pés ágeis. Ele escreve versos como quem grafita clandestino muros. Ele não pode querer ser pop star; ele é poeta. Daí a clandestinidade. Ribalta é para artistas. Ele rabisca bancos da frente com poemas de amor que escandalizam partidos políticos, pois poemas de amor escandalizam por sua radicalidade e pureza. Quando o poeta desce do ônibus e atravessa a rua, uma premonição se anuncia cobrindo o céu como nuvem repentina. É aí que busco meu destino de prazer e perigo, de vento no rosto e fuga dos automóveis. Até a próxima calçada, onde novos poemas de aguardam.
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