LITERATURA BAIANA: ENTRE “REGIONALISMO” E “COSMOPOLITISMO”

Em maio do ano passado, junto com Wladimir Cazé e Katherine Funke, fui convidado a dar um recital poético-musical em Tucumán, norte da Argentina, e a proferir uma palestra sobre literatura baiana. O texto da palestra vai abaixo. Ela foi traduzida para o espanhol por um tradutor e lida por mim num espanhol absolutamente canhestro. A sugestão do tema foi do Cazé, propiciado pela minha intervenção na Bienal de Arte e Cultura da UFBA pouco antes do convite aparecer. Com argumentos, na verdade, sem originalidade, trata-se de uma tentativa de introdução-flecha a alguns impasses literários da nossa “triste Bahia”.

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“Regional”, “cosmopolita” ou “nacional” são conceitos impróprios para o que pretendo. E pretendo justamente por serem impróprios, pois não os confrontarei, nem os igualarei, mas esboçarei, muitíssimo brevemente e aos saltos, como em uma literatura como a brasileira, que nasce sob o signo da colonização, falar de “regionalismo”, “cosmopolitismo” e mesmo “nacionalismo” é arriscado sob diversos ângulos, principalmente quando se quer definir uma literatura naquilo que lhe é mais característico: seja a “regionalidade”, seja o “cosmopolitismo”. Por outro lado, os estudos literários hoje no Brasil, e mais ou menos em todo o mundo, discutem as várias formas de adjetivação do termo “literatura”. A nossa velha e boa literatura aparece hoje como um meio, um caminho de afirmação cultural, meio de afirmação de uma possível identidade cultural (não me perguntem qual nem onde encontrá-la). Outrora, no entanto, o mérito de uma obra se resumia, sendo bastante leviano no modo como direi isso aqui, à sua capacidade de dialogar e reelaborar elementos estéticos da tradição especificamente literária, em grande medida uma tradição européia, mesmo quando transplantada para nossas terras.

Isso é notável desde as primeiras obras do período colonial que foram escritas na Cidade da Bahia, como tradicionalmente é conhecida Salvador, fundada em 1549, sede da administração colonial portuguesa no Brasil até 1763. Leiamos o poema À Ilha de Maré (1705), de Manoel Botelho de Oliveira (1636-1711), à época proprietário da ilha, pertencente ao Recôncavo Geomarítimo onde se encrava a Baía de Todos os Santos, porta de entrada para a construção da cidade no século XVI. Neste poema, do século XVII, vemos “regionalismo” e “cosmopolitismo” juntos e em tensão, produzindo efeitos que serão motores futuros do que aqui chamamos literatura baiana. Exemplo de como “regionalismo” e “cosmopolitismo” se embaralham (confundem?) nesse texto seiscentista está presente no momento da visão da terra. O poema se inicia com um olhar para a ilha lançado de alto-mar, um olhar que se aproxima dela pouco a pouco, como se o ponto de vista do sujeito que fala no poema fosse o do europeu que chega de navio à terra estranha, que, por sua vez, é personificada como uma mulher, a acolher o estrangeiro que a penetra e a domina, sexual e politicamente.

1.
Jaz em oblíqua forma e prolongada
A terra de Maré, todo cercada
De Netuno, que tendo o amor constante,
Lhe dá muitos abraços por amante,
E botado-lhe os braços dentro dela
A pretende gozar por ser mui bela.

Esta passagem emula diretamente o episódio da Ilha dos Amores, no clássico camoniano Os Lusíadas, que tem na mítica ilha de Vênus o prêmio aos marinheiros pela sua viagem de conquista. Na ilha, Vênus coloca à disposição dos marinheiros flores, frutas, riachos, sombras e mulheres para servirem e serem devidamente dominadas e conquistas pelos rudes heróis do poema. O elogio da terra era, ao mesmo tempo, a “venda” da própria terra.

Um pouco mais adiante, Botelho de Oliveira investe na tentativa de descrever a el-rei o que são as frutas brasileiras desconhecidas para um europeu, e nesse exercício de aproximação e semelhança, constrói passagens muito engraçadas, mas sintomáticas de um processo em que o diferente e estranho só podem ser compreendidos a partir do já-conhecido e controlado.

24.
As pitombas douradas, se as desejas
São no gosto melhor do que as cerejas,

25.
Os araçases grandes, ou pequenos,
Que na terra se criam mais ou menos
Com pêras de Europa engrandecidas,
Como elas variamente parecidas,
Também se fazem delas
De várias castas marmeladas belas.

Pitombas e cerejas; araçases e pêras. Exemplos de como o “regionalismo” das frutas locais no período colonial (o chamado “nativismo”) adquiriu forte coloração “cosmopolita” ao serem comparadas com as frutas européias, o que acaba por exotizar as frutas baianas, transformá-las no estereótipo da fruta estranhas, distante, rara, sensação essa que ainda hoje reproduzimos na Bahia e no Brasil como marca identitária: o exotismo. Nossa identidade sempre passa pelo modo como nos viram como diferentes, não necessariamente como queremos nos ver. Este poema de Botelho é colocado por alguns críticos como o primeiro poema tropicalista do Brasil, na medida em que mistura num todo cores e cheiros variadíssimos, uma profusão das mais inusitadas, fazendo dessa descrição uma espécie de carta de nascimento da ilha aos olhos de el-rei. Lembramos de um ícone tropicalista, Carmem Miranda, dançando com seu chapéu tutti-frutti, retrato feito à moda de um “regionalismo” para exportação.

Ainda no século XVII, um outro grande poeta, Gregório de Matos, ainda mais fortemente presente no imaginário literário e cultural do povo baiano – para muitos um dos pais fundadores da “cultura baiana”, e até brasileira, moderna por sua verve ácida e satírica, muito próxima da linguagem das ruas, de uma coloquialidade popular e mestiça. Em sua sátira, não salva ninguém do peso da crítica, por exemplo aos “fidalgos caramurus”, como chama os poderosos da terra sem raízes européias, diz:

(…)

Alarve sem razão, bruto sem fé,
Sem mais leis que a do gosto, quando erra,
De Paiaiá tornou-se em abaité.
Não sei onde acabou, ou em que guerra:
Só sei que deste Adão de Massapé
Proce
dem os fidalgos desta terra.

Tanto Botelho de Oliveira quanto Gregório de Matos seriam “regionalistas” ao mostrarem traços representativos do que hoje consideramos “maravilhas naturais e culturais da Bahia”: a paisagem natural abundante e paradisíaca, a mistura e a miscigenação étnico-lingüística do povo, a festa, o burburinho das ruas e a maledicência satírico-popular, que não perdoa nem aos governantes nem ao povo. No entanto esse “regionalismo” é permanentemente tensionado por um “cosmopolitismo” que, no contexto colonial em que viveram e escreveram seus textos, significa muito mais do que viagens, informação e cultura adquiridas via livros, jornais, televisão e internet, significa um olhar privilegiado para a metrópole e desde a metrópole para a terra da Cidade da Bahia de Todos os Santos, a Cidade de Salvador. Não podemos deixar de pensar Botelho de Oliveira e Gregório de Matos como criadores de poderosos estereótipos coloniais sobe a Cidade e o povo da Bahia. Por exemplo, o cosmopolitismo de Botelho de Oliveira é flagrado em uma passagem de absoluto estranhamento no seu poema, quando localiza no hemisfério sul a primavera em pleno mês de abril, repetindo um motivo retórico-literário comum à tradição européia, colando à paisagem tropical do Brasil a referência à deusa Flora e à esmeralda primaveril num mês relativo ao outono:

10

As plantas sempre nela reverdecem
E nas folhas parecem
Desterrado do inverno os desfavores,
Esmeraldas de Abril em seus verdores,
E delas por adorno apetecido
Faz a divina Flora seu tecido.

Impasses do “cosmopolitismo” em terras tropicais, impasses quanto a ser cosmopolita e não ser colonizado, ser cosmopolita e não repetir e imitar um padrão europeu de cosmopolitismo. Já em Gregório, toda a sua habilidade satírica ao criticar governantes, administradores coloniais, padres, negros, mestiços e poderosos em geral da Cidade de Salvador do século XVII deve ser compreendida como o olhar de um fidalgo de sangue lusitano, que ele era, magistrado diplomado em Coimbra, Portugal, mas que se via decaído e sem prestígio e poder algum na colônia. O que o faz voltar-se, satiricamente, para o tradicional lema latino do “ridendo castigat mores” (rindo, castiga-se os costumes).

Um branco muito encolhido,
Um mulato muito ousado,
Um branco todo coitado,
Um canaz todo atrevido;
O saber muito abatido,
A ignorância e ignorante
Mui ufana e mui farfante;
Sem pena ou contradição:
Milagres do Brasil são.

Se um cão revestido em padre,
Por culpa da Santa Sé,
Seja tão ousado que
Contra um branco ousado ladre;
E que esta ousadia quadre
Ao bispo, ao governador,
Ao cortesão, ao senhor,
Tendo naus no Maranhão:
Milagres do Brasil são.

Se a este pondengo asneiro
O pai o esvanece já,
A mãe lhe lembre que está
Roendo em um tamoeiro:
Que importa um branco cueiro
Se o cu é tão denegrido;
Mas se o misto sentido
Se lhe esconde a negridão,
Milagres do Brasil são.

(…)

Gregório de Matos, no século XVII, como um bom fidalgo, defende a nobre posição de religioso dos aventureiros ilegítimos, sejam eles ladrões, namoradores ou mestiços. Mas numa cidade em que tudo se encontrava de “pernas para o ar”, só o pode fazer pela crítica aos valores, pela sátira, para que “rindo se castigue os costumes”. Esse, sem dúvida, o “cosmopolitismo” de Gregório, que se sente tão fora do lugar na Cidade da Bahia, tão deslocado e em tensão com o “regionalismo” singular da sua vida cultural, tão marcada por uma inversão da lógica européia e representada pelo nosso tão famoso carnaval de rua. É na rua que as coisas acontecem na Bahia, que as conversas se iniciam, que as pessoas se apresentam e se encontram, são reconhecidas ou excluídas das rodas de convívio. Vide nosso caso mais paradigmático: Jorge Amado, sobre quem pouco falarei por ser também o mais conhecido, o exemplo mais “regional” e, ao mesmo tempo, mais “cosmopolita” da nossa literatura.

Com Jorge Amado a cultura baiana ganha um ambíguo traço modernidade, pois elabora um modelo afirmativo a ser constantemente repetido, um modelo de como se fazer literatura “moderna” na Bahia e de como fazer “moderna” literatura baiana. Primeiramente, as ambigüidades do período colonial, em que a descrição da natureza e da cultura a que os poetas-colonizadores tanto se prendiam será o prato principal da literatura de Jorge Amado. Se os homens negromestiços, a exemplo de Antônio Balduíno, um dos primeiros grandes heróis negros em um romance brasileiro, Jubiabá (1935), passam a participar da luta social e racial do realismo socialista que vai informar os primeiros romances do famoso escritor baiano, suas baianas negromestiças mantém a enorme capacidade de sedução e de malícia (as famosíssimas Gabriela, Teresa Batista e Dona Flor) e continuam sensuais. Mesmo que distantes das sátiras grotescas de Gregório, elas ainda estão submetidas ao olhar masculino, que trata de as ver como objetos do seu desejo.

Essa mescla na literatura de Jorge Amado do ideário político-estético do realismo-socialista internacional junto com uma representação de figuras do imaginário popular da sociedade urbano-colonial da Bahia fará do escritor, sem dúvida, o mais “cosmopolita” dos nossos “regionalistas”, sendo o contrário também verdadeiro, o mais “regionalista” dos nossos escritores “cosmopolitas”. Será aquele que dará fisionomia à nossa vida cultural moderna, que atrairá turistas e estudiosos das
mais diversas latitudes, fascinados pelos seus tipos característicos (pitorescos?) e as suas histórias que se utilizam de elementos do realismo mágico, muitas vezes propagandeados pelas máquinas internacionalistas (cosmopolitas?) dos Partidos Comunistas e Governo Soviético. Lembremos que estávamos em plena Guerra Fria e não havia escritor neutro no mundo. Essa tomada de partido fez de Jorge Amado um escritor participante das mais diversas rodas literárias e culturais do mundo cosmopolita: Sartre, Simone de Beauvior, Albert Camus, Pablo Neruda e Léopold Senghor serão amigos que darão a dimensão cosmopolita que Jorge Amado adquiriu, ao mesmo tempo em que os fez circular entre mães-de-santo e capoeiristas, transformando figuras da cultura local baiana em verdadeiros pop-stars, sem no entanto deixar também de serem seus “típicos” personagens, criando assim as bases para o que hoje gostamos de repetir, endeusar e vender para turistas incautos, e para nós mesmos, como “baianidade”: uma fenomenal idealização do povo e da cultura da Bahia, que faz parte também de uma poderosa máquina ideológico-cultural que nos quer ao mesmo tempo os mais “regionais” e os mais “cosmopolitas” de todas as culturas brasileiras.

Mais recentemente ainda, um novo poeta consegue repensar um pouco mais esse imaginário popular da Cidade da Bahia pela literatura, escancarando as ambigüidades e ambivalências presentes historicamente nela. Seu nome é Waly Salomão. Poeta, compositor, produtor musical, videomaker, Waly trafega com desenvoltura da linguagem culta e sofisticada dos salões “cosmopolitas” da cultura culta européia até a linguagem chula e de baixo calão do boteco, da prosódia oral das ruas populares. Artista que talvez resuma toda a indecisão, toda a ambivalência que é escrever literatura em uma terra, como a Bahia, de fortíssima e hegemônica cultura popular, mas surgida desde o Brasil colonial. Daí seus poemas virem atravessados de uma inegável força oral, não pela estilização da oralidade, mas pela tagarelice do verso longo, do cruzamento entre o vocábulo culto com o vocábulo chulo. Vide o exemplo de:

Acabou-se o que era doce, o confete foi-se,
Está findo o efeito placebo.
Queimado o filme e desmoronada a encosta
E esgotada a pilha da prosopopéia.

Em que frases e expressões de uso francamente coloquial formam a dicção modernista-de-rua que Waly adota e ao mesmo tempo parece fazer profissão de fé ao referir-se ao poeta brutalista da Salvador contemporânea, longe da Turris eburnea parnasiana:

Que o poeta brutalista é o espeto do cão.
Seu lar esburacado na lapa abrupta. Acolá ele vira onça
e cutuca o mundo com vara curta.
O mundo de dura crosta é de natural mudo,
E o poeta é o anjo da guarda
do santo do pau oco.

Junto a um regionalismo que se faz mais radicalmente localismo, ao optar pela dicção e pelo léxico das ruas, da fala cotidiana e coloquial de mais baixo calão às vezes, Waly Salomão é também o poeta que mais abre seu verbo aos mundos cosmopolitas, não o banal cosmopolitismo dos salões universitários e diplomáticos, mas os salões de todas as longitudes e latitudes. Descendente de sírios, nascido no sertão, morador de uma cidade de Salvador fortemente negromestiça, viajante por diversos portos e aeroportos, Waly gostava de repetir, um poema sintomaticamente intitulado Tarifa de embarque:
Sou sírio. O que é que te assombra,
Estrangeiro, se o mundo é a pátria em
Que todos vivemos, paridos pelo caos?

O “cosmopolitismo” e o “regionalismo” na literatura baiana contemporânea não são mais os de Botelho de Oliveira, não são mais os de Gregório de Matos, nem os de Jorge Amado, mas os da diversidade e multiplicidade de espaços, de dicções, de modos de escrever e de ler. Os escritores contemporâneos da Bahia são mestres em lidar com as adversidades que os estereótipos produzidos historicamente ajudam a reproduzir e a fixar, seja pela literatura mesma, seja pela fortíssima máquina da música e pela televisão brasileiras. Se querem fugir dos estereótipos, sempre tão gostosos como todo clichê, mas também tão enganadores, vão aos escritores vivos, da Bahia e de todo o mundo, pois escritor bom é também escritor vivo, para além das falsas oposições entre “regionalismos” e “cosmopolitismos”.

Salvador, 21 de maio de 2008
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3 comentários em “LITERATURA BAIANA: ENTRE “REGIONALISMO” E “COSMOPOLITISMO””

  1. Bom dia, Sandro. Você conhece alguma livro, artigo, monografia etc., que trace ou demonstre um panorama da literatura baiana no nos anos 80? Agradecido desde já… Já ia esquecendo, ótimo texto! acho que já é a terceira vez que o leio rs.

  2. Julho, soube há anos que Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro organizaram um livro que não sei se se trata de uma antologia ou do que sobre a Geração 80 da Bahia.

    Assim também, o livro do Valdomiro Santana – “Literatura baiana 1920-1980” (Fundação Casa de Jorge Amado) – chega aos anos 80, mas com muito poucas referências e uma abordagem bem menos consistente dos que a das outras décadas.

    E obrigado pela presença constante!

    Abraço

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