POSTAGEM 31: INVISIBILIDADE

O desejo de sombra, incerteza, claroescuro, penumbra e indeterminação traz o risco de se cair na obscuridade. Mas é com riscos que se escreve, que se faz literatura e se produz contra-assinaturas. Elas só existem pelos riscos. Nomes literários, heterônimos, pseudônimos, anagramas, personae, etc.: formas de ser além de si mesmo, estilísticas da existência, contra-assinaturas literárias. Presenças essencialmente escritas, elas são marcas que resistem aos controles institucionais, às assinaturas e aos estilos convencionais. Têm longa história na literatura (a falta que faz uma história das assinaturas artísticas) e hoje possuem um sentido fortemente político. É tempo de visibilidades fulgurantes, holofotes excessivos, obsessões identitárias, existências telemidiáticas. Assinaturas agora são realidade e risco; mais do que nunca. Mesmo que em anonimato e invisibilidade. Obscuridade. Todos hoje buscam a clareza. Comuncabilidade universal – símile da comunidade universal. Ainda o realismo escolar: transparência da linguagem. Se há muito barulho, excesso de clareza, deseja, então, o silêncio, cria o luxo de ser eminentemente desconhecido. The famous who? Chamar-te-ão excêntrico, mas o cultivo de excentricidades nunca foi para consumo privado ou um mero classismo. Sim uma linha de fuga social, uma política e um desejo de anonimato nos riscos. Deseja, portanto, o silêncio de Rimbaud, Rubem Fonseca, Herberto Helder e Dalton Trevisan. A misantropia de Drummond. Os mundos paralelos de Pessoa. A marginalidade de Genet. Sujeitos excessivamente obscuros geram obras excessivamente claras. A incomunicabilidade é um modo soberbo de assinar. Estilo contemporâneo: ânsia da clareza do nome próprio estampado. Atualidade da presença, sem a obscura perícia do skatista na rampa de saltos. Risco: ser um surfista dos nomes. Furá-los como se faz às ondas, ir à sua crista e, sobretudo, saber cair. É a queda que prepara o silêncio mais importante – reverente. Uma premonição que se tem a cada palavra impressa no cristal líquido. Memória futura esvaziada. Esse o desejo: the famous who?
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