(ramificações autobiográficas)

(…)
Sim, senhores: as pessoas pedem para eu ser mais claro. Como? O que espero é ver a metáfora apocalíptica ganhar um sentido literal. Entretanto desejam que eu conte anedotas. Decerto: vi uma vez um rapaz esfaquear outro. A multidão estava hipnotizada à volta; ninguém se mexia. Então o assassino disse: comigo é assim. Lá se vai a fascinação. Toda a gente salta em cima dele. Chama-se a política. Etc. É uma história. Gostam de histórias. E o sentido disto? Em mim é que ele está. Mas quem me pede significações? Não, não querem metáforas. Ponho-me a falar da beleza mortal dos espetáculos, de certos momentos extremos que regeneram a própria existência desde a origem. É uma coisa minha. Diz-se para se estar só, ser contra os outros, limitar a invasão do mundo – dessas ruas e casas, dessas populações de funcionários angélicos. Não me falem de inocência nem sabedoria.
(…)
[Herberto Helder, Photomaton & vox, 2 ed. Lisboa, Assírio e Alvim, 1987, p. 27]
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