POSTAGEM 28

Mais do que o texto, sempre me interessou pensar em escritores cuja literatura pode ser um produto moral, um produto direto dos seus julgamentos sobre a vida. Não escrever para julgar. Algo. Alguém. Escrever como quem julga. Não o alvo. Mas o ato. Isso fortalece. Isso determina o estilo. Escrever como a vida. A escrita como uma decisão irreversível de vida, mesmo que afirmando sua incerteza diante. Sentimentos vitais em confronto de vida e morte. Escreve-se como quem luta pela vida. Não por ódio ou amor. Mas como um sentimento de fundo, que acompanha escritores não nos momentos de forte emoção, mas no campo horizontal do cotidiano. Uma prática e um pensamento literários que sejam íntimos da horizontalidade. Pois não falo de coerência, imutabilidade, certeza. Falo de deixar-se levar. Falo de acompanhar o horizonte pela grande angular dos filmes de John Ford. Que nos entram pelos olhos surpreendidos. Drummond e suas fases, Pessoa e suas faces, Rimbaud e seu silêncio, Jorge de Lima, Murilo Mendes e suas conversões. Mesmo que se viva pouco, pode-se escrever em longo alcance. Essas mudanças são resultados de pesquisas de planos, de estilos, de vida. Escrita e vida. Sem verso e reverso. Puro arbítrio. Vivo diante da escrita, que se expõe, falsamente indefesa, mas perversa à vontade do escritor. Sabê-la domar é saber julgar. Separar. Escolher. Cortar a vida. Isso determina o estilo.
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