POSTAGEM 23

Escrevo endereçado a todos. A ninguém, portanto. Entre silêncios, escrevo só. Quem seduzir entredentes, nas entrelinhas? Todos prosseguem na imensidão das suas próprias linhas – muito justamente –, enquanto escrevo miúdo meu passo de formiga nos jardins de mil e uma folhas de soterrados livros. Rascunhos do meu lado para nenhum romance do outro lado. Mas nada falta: tudo existe como invenção e intensidade. Indiferente a um você para tocar minha imaginação com respiração, calor, sons. Deslocamentos de ar pelo movimento das mãos pelas pegadas. Barthes, parece que repetindo Gide, dizia que é preciso possuir rotas de fuga, espaços públicos nos quais as palavras às vezes possam ver a luz do sol – luz imantada por perfume tópico. Até as mais ciosas e radicais políticas do anonimato têm o espaço público como contrapeso. Talvez uma nesga de sol entrando pelo muro bastasse. Mas há demasiada exposição. Demasiada luz. Demasiado público. A ausência de leitores não é uma falta. É uma prática estóica. A outra face da escrita como cuidado de si. Ninguém para me validar além da minha própria vontade de auto-afirmação e fantasmagoria pública. Da ausência do leitor à ausência do escritor para resultar na presença da escrita. Apenas. Seu corpo, seu traço. Anônima. Parricida. Na verdade, suicídio do escritor, esse gesto de real maioridade, pois sua assinatura não estaria em seu nome, mas numa marca de estilo, uma contra-assinatura. Como todo texto forte que se preze, seu autor depende dele, é seu rebento, filho pródigo que não consegue abandonar sua casa totalmente: escrita. Nela é que ele se perde, que ele se mata, que ele se deixa embalar. Insuspeito e sorridente. Sem negatividade. Alegria de escrever, essa.
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