POSTAGEM 22

Sonho com uma antologia imaginária que se torne real à medida em que você a leia. Mas apenas em sua imaginação. Você me lê agora? Então você sabe que é apenas minha imaginação, não sabe? E que só existe porque me lê, tornando-se real, no mo(vi)mento da leitura? Assim também comigo, pois só me sinto existir quando você me lê. Mas quem pode escrever melhor sobre isso é você. Sobre me imaginar tornando-me real ao ler sua imaginação. Por que não (me) escreve mais? Por que você não? Por que? Por? Precisei tanto de você nos últimos meses. Foram de terrível estranheza. Ninguém para ler e tornar real o desejo de escrever. O desejo de. O desejo. O o. Fascinação e anonimato, nos quais entro mais forte. Mais franco com minha mão que te escreve agora mesmo. Mais franco com você. Se você imaginasse como é cruzar essas avenidas após escrevê-las sem ninguém para ler. O anonimato do próprio corpo sendo colocado à prova. O pavor de ser atropelado por palavras da sua própria imaginação, correndo em tropelia sob nuvens que se agigantam junto aos cabelos frágeis, talvez imaginasse como me senti. Terrível fascinação. E eu te leria. E eu seria real. Daí te escrevo agora e conto essa história noturna, história de aprendizado que não terminou. Que não termina. Nunca. Sonho com uma antologia imaginária que reúna nossas imagens tutelares. Rabiscos e grafismos como micrototens. Aprender a lê-los. Cultivá-los. Aprender a sintomatologia da escrita para poder chegar à metamorfose. Carne em verbo. E assim podermos nos reunir na sua leitura sem fim. Leitura assim. De mim. Desse sonho que tenho quando te escrevo que sou essa escrita que (me/te) lê e transforma. Antologia imaginária. Sem palavras. Só o sonho do traço de cristal líquido. Cristal de lágrimas imaginárias. Antologia de cristal em que sou efeito da refração prismática da luz de seus olhos. Estranhas marcas sobre o branco que, escrito, pode ser lido. Por isso sonho. Por isso escrevo que sonho. Por isso me dou a ler e à sua imaginação. O desejo de anonimato necessita da leitura. Para se morrer. Num sonho antológico.
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