LEITURA E SAÚDE

Roberto Corrêa dos Santos

Não é necessário grande esforço de observação para se constatar que assim como o campo da doença está diretamente relacionado ao campo da ignorância (em todos os seus sentidos), o universo da saúde encontra-se, por sua vez, entrelaçado ao universo do conhecimento, em suas diferentes formas. Quanto mais se alarga o espaço para o conhecimento, mais se reduzem as possibilidades de existência da doença. O conhecimento desenvolve-se por meio do exercício de múltiplas práticas, que sempre serão, de algum modo, práticas de leitura, na medida em que o gesto de ler ultrapassa a atividade de reconhecimento do alfabeto gráfico e abrange a imensa variedade de seres, atos e processos que nos circundam. A constante operatividade da leitura permite ativar nossos sensores críticos e nossos mecanismos de autoproteção.

Ler, assim tomado, envolve, entre outras ações importantes, observar, refletir, imaginar, abstrair, testar, associar, distinguir, transformar, preservar. O conhecimento nutre-se da leitura dos livros, da leitura dos fenômenos, da leitura da vida diária, por ser, ela mesma, uma espécie de livro-em-aberto sendo escrito por nós e por muitos, que, de maneira menos ou mais próxima, atingem nosso modo de existir. A leitura, sob qualquer razão, torna a vida um movimento de pesquisa. E assim, a todo tempo, estamos, sem nos darmos conta, a ler. E a escrever. Procedimentos incontornáveis a exigirem o polimento constante, a delicadeza na afinação dos instrumentos que aperfeiçoam o bem-viver. Serenos e críticos, bem mais capazes estaremos para a compreensão dos tantos elementos que nos formam, bem como dos tantos fios que constituem a rede social em que nos inserimos.

A saúde advém do entendimento desses mundos – o dos afetos e das emoções, o das aparelhagens psíquicas, o do funcionamento da máquina do corpo ele mesmo (nosso próprio corpo e aquele outro em que cada um se inscreve estabelecendo intercâmbios: o corpo social). Conhecer por meio da leitura dos textos que nos cercam e que compõem a vida cotidiana, indo além do apenas informar-se, e, portanto, em direção ao domínio dos meios legítimos do exercício da capacidade reflexiva, permitirá alargar vigorosamente a saúde. Melhoramos assim tanto do ponto de vista da mente e do espírito, quanto do ponto de vista somático. E como a vida é uma urdidura de elos, mais plena e firme ela se fará, se formos capazes de aumentar-lhes os vínculos e a potência energética. O saber é a carga e o motor. Deriva dele o podermos aclarar. Ao aclarar, o corpo equilibra-se.

Estatísticas mostram que o saber-ler será sempre bem mais eficaz do que os remédios criados para o combate a determinadas doenças. A maioria delas implanta-se em virtude do provocado ‘analfabetismo’ (cultural, histórico, psíquico, político, ético). Não bastam campanhas de alerta sobre perigos ou sintomas das doenças. É imprescindível que as campanhas façam-se acompanhar de atitudes intransigentes e constantes de modos públicos de acesso aos meios de formação do… chamemos assim: LEITOR; leitor especialíssimo, pois munido dos recursos de base para desenvolver as qualidades essenciais ao direito de se tornar efetivamente CIDADÃO. Leitor-Cidadão; logo, Leitor-Escritor – aquele que é a um só tempo autor de sua vida e co-autor da vida coletiva. Aprimorando-se dia-a-dia, manter-se-á saudabilíssimo. O corpo e a alma juntos. Fortes, elevados.

Roberto Corrêa dos Santos é Doutor em Semiologia (UFRJ) e autor do livro Modos de saber, modos de adoecer (UFMG).

Fonte: http://www.leiabrasil.org.br/textos/visualizartexto.aspx?id=448

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