CAMÕES BURGER

O mesmo Camões, agora treslido por um jovem poeta português.

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É conforme. Já lá vão mais de
quatrocentos anos de tal “conversa
fiada” que poucas penélopes encontrou.
Para alguns, doutos e moralíssimos,
o comércio com as musas não era compatível
com fodas de foder bem dadas, em redondilhas
um pouco maiores do que eles, os necrófagos de serviço.

Os tempos mudaram, claro (e as vontades foram
encontrando novos alvos), mas a comédia dos ossos
veio para ficar, incerta, numa praia
insigne de enganos e misérias.
Agora, num intervalo cibernáutico medido
pela ignorância pública, lembram-se
d’O Poeta e de uns versos que a memória canta,
propícios às presidências que tão mal presidem.

São gajos novos, ou nem tanto assim,
místicos do “progresso” em que seus redondos
cus assentam, isto é, sobre um povo analfabeto e tudo
que ainda não lê nem sonha a pátria que foi, apenas, pretexto.

Porque um homem, por menos que valha,
valerá sempre mais do que esse conluio
de gestos sem alma dentro. A pátria,
meus senhores a pátria, foi esse ocidental
falo lusitano que gostava como Pessoa
de vinhos e de ironia fera. O resto foi cuspir,
cuspir raro na inércia e no inconclusivo ardor
com que um país em saldo se cumpre.

(Manuel de Freitas, [1972- ], Game over, Lisboa, & etc., 2002, p. 45-6)

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