CELEBRAÇÃO, MORTE E HUMILDADE

Depois de ler o livro Celebração da poesia, de Henri Meschonnic, e assistir ao documentário Palavra (en)cantada, de Helena Solberg, me pergunto: o que mais importa, a poesia ou o poema, a música ou a canção? O livro do poeta e ensaísta francês é irônico quanto ao elogio exagerado da poesia nos tempos atuais, sobretudo (mas não apenas) pelos próprios poetas, que não sabem mais escrever sobre outra coisa se não sobre o próprio ato de escrever poesia. Afirma Meschonnic que o poema foi banido em nome de uma inapreensível e onipresentemente celebrada poesia. O documentário de Solberg me parece confirmar um pouco dessa celebração, só que na música popular brasileira, ou melhor, nas formas de canção brasileira, do samba ao rap. O poema cantado, no entanto, não foi esquecido no Brasil. Apesar da “celebração da MPB”, das músicas que sempre elogiam a própria música ou a poesia da música brasileira, essa me parece a grande lição do documentário: o poema (cantado) não foi esquecido no Brasil. Se o poeta brasileiro tem muito o que aprender (a contragosto) com os nossos poetas-cancionistas, estes no documentário mostram que sempre aprenderam humildemente com poetas. Chico Buarque, inclusive, lá pelas tantas, chega a afirmar que se a canção tiver que morrer, que morra, pois teria provavelmente cumprido uma espécie de ciclo histórico, o que por outro lado Meschonnic não quer assumir com relação ao poema.
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