POSTAGEM 19

Busco um corpo para mim. Por isso escrevo. Por isso te. Busco um corpo, para que me leiam, para que me vejam, para que eu faça sentido da maneira mais viva que puder. Junto a mim, junto a ti, junto. E sentidos vivos, achamo-los nos corpos vivos. Então busco um corpo para mim. Eu, que nasci filho do carbono e do amoníaco, monstro de escuridão e rutilância; eu, que nasci filho do êxodo, retornei para onde nunca estive, minha terra alheia; eu, que nasci nas fronteiras internas de um país partido (Drummond fala que o Brasil não existe, que precisamos esquecer o Brasil), parti-me, perdi-me, nunca estive, nunca tive um corpo, nunca fui de fato. Meu fato corporal é monstruoso em tempos prêts-à-porter. Meu corpo outrora foi um fato universal, um fato imposto aos que possuíam seus próprios corpos. Meu corpo só não foi um fato meu. Quem sou no entrechocar desses corpos? Meu pai? Minha mãe? Meu filho? Onde acabam seus corpos e omeça o meu? Há esse limite? Onde acaba o teu corpo agora que me lê? Penso que escrever para buscar um corpo é elaborar uma erótica que extrapole o prazer do texto e vá para um desejo de afirmar e criar uma espécie de espaço sideral à flor da pele. Siderar os sentidos é fazer viver o corpo, pois spo assim escapo às representações, aos incorporais. Importam as representações que brotam do corpo. Por isso busco um corpo. E escrevo.
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