LANGUAGE ART

Tendo ido à exposição do Vik Muniz no MAM-Rio, não parei de pensar na poesia. Era último dia, uma fila de mais de 250 metros para se entrar, pessoas lá dentro se acotovelando para observar suas fotos, comentar, adjetivar, crianças exclamando: “olha, pai!”. E eu pensando na poesia. Ok, agrada-me pensar na poesia como clandestina; agrada-me pensar na poesia como experiência laboratorial, oficina, pensamento de ponta, etc., mas desagrada-me vê-la mesmo é reduzida à mais completa invisibilidade, ou, quando visível, cheia de clichês. O trabalho do Vik Muniz realmente fascina: laboratorial, mas comunica fácil e diretamente. E eu pensando na poesia, eu pensando nas provocações do Ricardo Domeneck. Foi o Wladimir Cazé quem me apresentou algumas das suas reflexões críticas sobre poesia contemporânea. Gosto da sua poesia, é pensamentada, como li uma vez Antonio Houaiss (ou foi Mário de Andrade?) referindo-se ao Drummond. Ele vem aproximando poesia de artes plásticas por um caminho bastante diverso ao da, já histórica e de manual, poesia concreta e de seus ‘continuadores’ de linha construtivista. No geral, ele não nega a discursividade da poesia, ao contrário, solicita-a como necessária, mas não para fazer, da poesia, apenas “literatura”, mas para fazer da poesia uma forma poderosa de arte da linguagem. Language art: adorei a expressão, a força conceitual e a abrangência que ela possui. Ecos da Language poetry norte-americana, ele não nega. Mas volto ao Vik Muniz, que opera tanto no vetor da discursividade histórica, ao dialogar com da Vinci (via Warhol), com Botticelli, com os impressionistas e pontilhistas, com os naturalistas, com os modernistas, com os repórteres fotográficos dos jornais diários, com a Revista Life e muito mais. Dialoga com próprio discurso das artes plásticas e a discussão dos materiais, dos suportes (arte plástica ou fotográfica?), da autoria, autenticidade, blábláblá. E, sobretudo, não abre mão da figurativização, seja pelos retratos, seja pelas naturezas mortas, seja pelas fotos jornalísticas, seja pelo símile de uma famosa foto do John Lennon. Parece-me que é principalmente pela figurativização e pela historicidade do seu discurso, em diálogo explícito e assumido com a representação do seu próprio mundo e tempo e com a história da própria arte, de outros artistas e outras obras que o público pode entrar, comentar e exclamar. Representação e sensorialidade, lado a lado à discussão sobre procedimentos da arte. Domeneck, por seu turno, exemplifica conhecer pessoas que vão a exposições de artistas plásticos conceituais, ouvem avidamente John Cage e música eletrônica experimental, discutem apaixonadamente filmes de Andrei Tarkovsky, Derek Jarman e Yoko Ono, lêem Finnegans Wake, Beckett e são fãs das encenações de Gerald Thomas, mas que não nutrem absolutamente nenhum interesse por poesia. A palavra não lhe diz absolutamente nada. O mesmo vale para exemplos de pessoas que consomem arte menos “antenada”. A quem culpar? O jovem poeta afirma e eu endosso: aos próprios poetas e seus encastelamentos, clichês e arrogâncias, de um lado, ao qual acrescento eu, de outro: à escola e à institucionalização de um ensino horripilante de literatura, à qual se liga uma poesia mumificada.
Continuo outra hora.
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