POSTAGEM 18

Seu estigma é a solidão. Ela não te abandona, mesmo quando tudo parece correr bem, seus amigos próximos, um amor carinhoso, um trabalho em grupo. A impressão que você tem é que tudo pode – de uma hora para outra – se quebrar e sobrar sua velha amiga solidão. É o que você sente agora, do alto da janela, ouvindo lá embaixo das vozes que correm atrás da bola, atrás do ônibus, atrás de amores que passam e se vão. Mas você está sem voz. Ela também se foi. Calado você está e você permanece. Sem vontade. Desvitalizado. Sente que tudo se foi, de uma hora para outra. E sente que o próprio responsável. Encara tudo isso como seu destino. Amor fati, diz, semi-altivo. Trágico, eu entendo. Mas ainda quero compreender melhor a sua vida, esse círculo em que você corre – cobaia nas mãos do deus-destino. E mesmo assim, responsável. Como assim? Se saber num jogo alheio e enfrentá-lo, consciente dele ser apenas isso: um jogo. Seus olhos misturam impressões de decisão e cansaço. Está casado de saber-se permanentemente em jogo, de nunca conseguir descer do palco, responsável por atuar em um jogo cujo autor não é você, por mais esforço que faça, por mais que lute, por mais que. Seu estigma é solidão e você o carrega no peito firme, nos olhos esgazeados, nas mãos cerradas. Palco conhecido, mas cujo dono é outro.
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