POSTAGEM 17

Antes de nos encontramos no domingo, pensei no quão legal poderia ser. O lugar, o café, a conversa, tudo proporcionava um clima de camaradagem. Lembro-me de antes, como te imaginava. É engraçado como os momentos míticos não nos abandonam, mesmo que sua mitologia jamais se concretize no fato, no acontecimento, nunca tome corpo. Ela continua, perdura poderosamente. E tenho uma tendência a me achar o detonador das inabilidades do contato. Seja nos sociais, seja nos amorosos, o inábil sou sempre eu. Talvez por isso seja tão cioso de códigos e protocolos. Descobri-los é um exercício de territorialidade e auto-estima. Mas você, você me parece demasiado romântico, demasiado crente no “mostrar o verdadeiro eu”. E acredita que isso lhe levará a um estado de _________________ em que poderei (eu e qualquer um) te alcançar. Ledo engano no meu caso, pois aí não há códigos que adiantem, aproximem e propiciem. Também creio na beatitude, mas como meio de mim para mim mesmo, como método absolutamente pessoal e intransferível para me tornar quem eu já sou, para você e para qualquer outro. É escrever que leva à minha beatitude pessoal, mas ela também tem que criar códigos de trabalho, comunicação e encontros positivos. Acho que nossas escritas se perderam naquela noite, pouco trabalharam, pouco se comunicaram, pouco. Apesar das nossas vontades. Para você, como foi? Acho que soube a respeito. Era mesmo? Pergunto, pois achei tudo muito elíptico. Aliás, sempre como o que você. Seu estilo é elíptico e acho isso bacana. Você é elíptico. Queria ser mais, como nota por essa nota que te envio. Mas não é meu estilo, como queria ________________. Levá-lo à flor da pele, não consigo. Finjo elipses que não me pertencem. Teatro é minha pedagogia pessoal. Acho que por isso te escrevo agora, por isso escrevo: para buscar as entrelinhas, a coxia, por outra. Talvez haja quem viva nas entrelinhas e busque as linhas, na coxia e busque o palco; quero mais as entrelinhas. Protocolos de entrelinhas são possíveis? Protocolos nas. Ah… são o exercício de permanecer nas linhas e chegar até alguém e pôr tudo a perder. E entre o perder(-se) e o achar(-se), o que é que há? Crise? Crase? Erro? Errância? Improviso? Certamente há elipses. Que agora tanto uso para não-dizer o que gostaria de dizer e de fato digo, pois escrevo, para você, precisamente.
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