HIPERGRAFIA 10

Você me fala em mérito, na escolha por mérito, na seleção por mérito, na hierarquia por mérito. E eu acrescento: na competição em busca do mérito, do poder do mérito, na vitória por mérito, na derrota, no estigma e no banimento por falta de mérito. O mérito que separa o joio do trigo, que afasta o mau do bom, o mal do bem, o errado do certo. Tudo certo, então, tudo certo, te respondo. É necessário. Mas tudo certo mesmo? Basta a necessidade? São critérios, mas critérios, me parece, duvidosamente racionais, duvidosamente democráticos, duvidosamente igualitários, como você supõe e me diz. É sobre isso que tanto escrevo. É sobre isso que tanto pergunto: afinal, quem escreve? Quem escreve aqui e agora? Sim, tenho minha queda pela formação à la aristocrata, alta cultura e erudição: poesia moderna e clássica, cortesãos, dândis, malditos. Mas venho buscando minar minha escrita com uma espécie de dúvida permanente, longe de qualquer auto-ironia (esse é um tempo passado, uma outra simulação): hoje se trata de inquietação e estratégia mesmo. Tentar me manter à salvo de qualquer pretensão de ser um dos melhores (os aristói), você compreende? Ou melhor, me faço compreender? Daí que o mérito ressoa para mim com fortíssimos laivos aristocráticos. O governo dos melhores, o critério dos melhores, o mérito dos melhores. E os piores, os ineptos, os feios? Que se adaptem, pois os melhores escrevem as regras e as ensinam? Nesse caso, admita, vamos lá, sabemos muito bem quem escreve e quem ensina. Eles não deixam dúvida, eles não se colocam em dúvida. “Eu sei”, escrevem, “eu vi”, repetem sem qualquer eco delirante (o que é o mesmo que ‘desviante’). Ao contrário disso, o “eu vi” é a escrita de uma autoridade que não se põe em dúvida. Escrita de Deus. Tradição. Família. Propriedade. Mas você me fala na sociedade, nas instituições que existem e que não dá mais pé em acabar, reinventá-las assim, num passe de mágica. Mas o mérito, essa ordenação de critérios com vistas a algo eleito ‘melhor’, o que tem a ver com isso? Mudemos de critérios. Aliás, os critérios da rua nunca foram os da biblioteca. E estamos na rua, meu caro, com o pé sujo no meio da rua, como quando éramos crianças. Daí o mal-estar.
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