SEM TÍTULO

desconfortavelmente posto
na loucura mansa
todo dia pouco
a pouco se avança

vala diária, ruído das ruas
odor de cuspe, carne crua
e cabeças cortadas

carros nos muros, punhos nas faces
mendigos, executivos, inimigos
sem escape
homens-sanduíche da sociedade

tudo passa, e passa rápido
não pára, voa, segue adiante
logo logo se arranja
novo estupefaciente

o pescoço só osso
é fome, fé e ferrugem
por cima de tudo
cama, casa, calçada, São Petersburgo, o mundo!

palavra é que urra
à beira da mais total
completa e irrevogável penumbra

vida em desordem
sem paz, sem vício e sem risco
impossível isso?
pense em um morto-vivo

então é cala-boca e toma
que o filho é teu

estranha virtude que nos une
hipócrita leitor, meu igual, meu irmão

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