HIPERGRAFIA 9

Sempre que penso em retornar é porque algo na minha cabeça como uma espécie de reforma não pára. Então sento e seguro o teclado com os dedos, seguro firme, pensando em como escrevo próximo ao teu ouvido, como te falo minhas delícias e dores, de maneira absolutamente próxima. Lembra: proximidade sem intimidade, por pura falta de jeito com o mundo. Mas o esforço da minha mão é só por você. E como não posso dizer de outra maneira sem que nos sintamos em uma espécie de exercício escolar, o que apagaria completamente nossas vidas e sentimentos mais compartilhados, pungentes e intransferíveis. Por isso te conto, por exemplo, da sensação de alegria que me assalta nos últimos meses – tenho escrito sobre essa sensação, ou melhor, tenho escrito com essa sensação nos dedos – alegria dos dedos ao escrever! Por isso te conto, também, das descobertas, pessoais e coletivas, informais e protocolares – sim –, que me são possíveis hoje como há pelos menos 15 anos não aconteciam. Jogar o jogo, sabendo tratar-se simplesmente de um jogo, e mesmo assim jogá-lo com a própria vida, pondo em risco a própria vida. Aprendi isso lendo ___________. Lembra dele? Já te falei dele? 15 anos! Será que consigo repetir a aposta de quase duas décadas? A aposta da minha vida? Melhor não pensar assim, os tempos nunca voltam, são como a escrita, são a própria escrita. Somos escritos, mas somos intransferíveis na nossa escrita, na nossa escolha, o que nos faz donos delas também, o que nos faz responsáveis por elas também. Não responsáveis à maneira de deveres e obrigações sociais, mas responsáveis à maneira dos códigos de proximidade conosco, o que significa um código negociado permanentemente também com um outro. A mais poderosa das políticas, a do sujeito que escreve. Daí, então, que tento ser o responsável direto por mim, por mim e por você, quando aqui venho e nos exponho assim. E você sabe, já era assim há 15, 18 anos, você acompanhou, no seu tempo e à sua maneira, 15, 18 anos depois, mas acompanhou. Você sabe do que falo. O tempo tratou de trazer mudanças, nem todas boas, nem todas más. Mas mudanças. Mudei. E sempre retorno. Venho de diferentes maneiras e de diferentes lugares. Você me estranha sempre que recomeço. E sempre recomeço, mas de uma maneira que me pertence. Não pertence a ninguém. Dor, alegria, tristeza e prazer já estiveram aqui com a mesma intensidade, você sabe bem. Mas nunca estiveram aqui da mesma maneira. São jeitos de estar no mundo, presente, ausente, igualmente intensos, mas de maneiras diferentes. Por isso te escrevo. Você não acredita? Será que falho ao vir aqui? Erro ao te escrever assim?
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