HIPERGRAFIA 7

Mito é relato, história, discurso. Tudo que se conta é mito. O que se pretende contar. O que se sonha. Tudo para o que se aponta através das palavras. Palavra. Minha escrita é um mito rutilante. Toda escrita é. Mitos são ritos contados. Ritos são mitos encenados. Vividos. Experimentados. Se quando nos escrevo aqui, produzo mitos, quando nos represento aqui, ritualizo nossas vidas, abro portas, caminhos, trilhas, picadas por entre vasto matagal que nos separa. Eu e você encenamos nossas vidas pelas mãos escritoras que te estendo, mergulhadas nas palavras que nos mitificam, recobertas pelas paisagens que nos dão sentido. Seja bem vindo, então, novamente. Sim, novamente. Você não tem a estranha sensação de que quando escreve só reescreve o que outrora já escreveu? Cada novo texto é um novo convite ao que já foi dito por você mesmo e que só se repete numa espécie de canto particular, de totem pessoal? Qual o seu canto, qual o seu totem? Na verdade, escrevo-te sempre a pensar nisso, escrevo-te para achar isso que não se acha em qualquer lugar. Talvez não ache nunca. Por que achar? Escrevo para nomear, nomear-me e nomear-te. Qual nosso nome nesta época de nomes em excesso? Queria poder chamar-me “isso”. E chamar-te-ia “isto”. A impessoalidade, como encontrá-la nas palavras, como erigi-la pela escrita, quando só se ouve o mesmo canto particular? Como nomear sem precisar de nomes? Como abdicar de um nome próprio assinando e sustentando o escrito? Mas, afinal, quem escreve? Cobram-nos que sejamos nós. Que façamos valer nosso nome, nossa assinatura, nossa identidade, quando ela é tão precária, quando somos tão precários. O mito da individualidade e da pessoalidade. Como não ser sujeito? Como não ser assujeitado na escrita? Parece, então, que não escrevemos, mas somos escritos. E toda certeza se esvai como pó. Contradigo-me? É assim. Desculpe, preciso rever minhas idéias. Espere, só não me deixe de ler. Escrever é assim, andar na corda bamba, no risco que fazemos sobre um nada em branco. Espere, amanhã lanço uma nova escrita para você. Só não sei se serei eu a escrevê-la. Então não se vá totalmente.
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