HIPERGRAFIA 4

Trabalho com a escrita, você deve saber. A alheia. Porque a própria, eu a uso como linha de fuga para meus paraísos artificiais. Mas como é árida a escrita alheia, como é distante, atroz, enorme mesmo, e como a tratam com tanta violência, tanto menosprezo, tanta falta de cuidado e carinho. A violência e o afeto do mundo estão nas escritas. Não nas ruas. Estão no modo como lemos escritas que nos chegam de outrem e que transformamos em nossas de um modo que não o leva em conta. Lemos sem perguntar o que as escritas desejam. Daí eu pergunto: por que escrevo, se sei que posso ser violentado, inclusive nas minhas perguntas? A partir das minhas perguntas? Melhor suspender a mão do teclado e sair pela noite à procura de escritas perdidas, escritas que se abrem a mim e que posso acarinhar sem medo? Trabalho com a escrita, você deve saber. A alheia. E é tanto desprezo que leio nos olhos alheios, não nas escritas, nos olhos, nos olhos que lêem, eu escrevi, é tanta soberba. Quem se coloca delicadamente diante do outro e lhe pergunta: o que deseja? Pois é assim que quero me colocar diante de escritas alheias, não dos olhos, de escritas. Mas como, se me cobram violência? O leitor de hoje me dá medo.
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