HIPERGRAFIA 3

Conto. Quando escrevo, sinto que posso me tornar quem quer que seja diferente de quem já sou. E não sinto isso como uma forma figurada e pretensiosa de dizer outra coisa. É uma realidade concreta para mim. Queria muito saber se com você também é assim? Quando me escreve um email, quando escreve qualquer email, quando escreve qualquer coisa, um bilhete, um comentário, um recado, um suspiro que seja, sente que pode ser um outro que escreve, sente que pode ser um outro que tem sua vida contada, sente que pode experimentar coisas que de outro modo, que não escrito, não poderia? Mesmo quando assina com seu nome? Você sente isso? Daquela vez em que me escreveu sobre o rompimento da relação com ______________, você sofria como me escrevia, a procura das palavras para dizerem o que sentia era fiel ao sentimento de perda e dor, ou havia qualquer coisa de imaginação que reelaborou seu sentimento e você saiu diferente ao final da escrita? Essa sensação que tenho, no entanto, me coloca em grande hiato com o mundo, me põe numa espécie de antípodas da vida cotidiana, numa existência que penso às vezes ser de papel e tinta. Eu lhe pergunto, então, se o mundo foi feito para acabar em um livro? Não sei. Seu silêncio parece de compreensão com esse meu mal. Não lhe peço concordância, mas compreensão, que me entenda, mesmo que me ache extravagante, hermético ou pretensioso. Não é voluntário, lhe juro. Deve, sim, me considerar contraditório. De um lado, escrevo a minha distância do mundo diário e chão, de outro, reclamo comunicabilidade, testo meu canal para você, lhe chamo. Não se ofenda. Meu mundo é essa grande fenda, esse espaço oco, que luto por preencher com água, terra, cimento e palavras, sobretudo palavras. Escritas, você sabe. Então vou lhe contar uma coisa. No encontro, repetiram aquela nossa frase: eu é um outro. Você sabe que também gosto de pensar – e é aqui que você entra para valer, sabe – que o outro é um eu, principalmente quando leio. Quando leio, o outro é um eu que ganha corpo, vida, voz para meus ouvidos e meus olhos. Daí que, quando me leio, o mundo se dilui, a luz se evade, a vida foge para trás do horizonte e rompo os limites entre eu e outro e me torno multidão. Delírio carnavalesco, você quase me diz. Desculpe, não queria te encher novamente com isso. Mas preciso que me leia. Preciso que me leia, mesmo que não concorde, mesmo que não me entenda, mesmo que não. Mesmo. Pois preciso escrever. Preciso.
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