HIPERGRAFIA

Estou certo do que escrevo? Certo do que afirmo? Ao ensaiar a ênfase e pressionar a tecla de interrogação, algo trincou e as certezas de quando lhe escrevia ganharam aspas, perderam a naturalidade que pensava possuírem. Diga-me se nunca mais conseguirei escrever sem observar a minha própria escrita? Se nunca mais escreverei como escrevia quando exercitava redações na escola? Se nunca mais escreverei como quando muito antigamente? Se nunca mais a transparência? Se nunca mais? A escrita se tornou minha Muralha Chinesa. Como ultrapassá-la, como derrubá-la sem pôr contra mim exércitos inteiros? Inclusive os que tenho como aliados. O esforço de atravessá-la diariamente me arranca o espírito. Ontem falaram em maldição. Lembrei do filme “____________”, do ___________. Pois bem, sinto-me muitas vezes afogado em palavras. Em palavras escritas, ainda pior, palavras inscritas, materializadas à minha frente, no meu olhar, sob minha mão, coladas à ponta dos meus dedos. Afogado em palavras: hipergrafia. Metáfora? A sensação de que a tangencio e me assombro. A mão escrevendo compulsivamente palavras por linhas e mais linhas sem necessariamente construir algum texto, algum sentido. A ambição que ronda. A mão detida no desenho das letras, serifas, curvaturas, assinaturas. A mão obsessivamente caligráfica migrando de detalhe em detalhe da escrita. Mão cirúrgica. Mão sinestésica. A escrita como exercício e finalidade em si mesma. Poesia, gosto de pensar. Poesia pelas paredes da casa do ‘doente’, poesia pelos braços do ‘doente’, poesia em qualquer papel que caia à mão do ‘doente’, mesmo que seja a bula do remédio para combater a própria ‘doença’. Sempre haverá a escrita compulsivamente inventariante da hipergrafia. Listas, notas, versos, parágrafos, rasuras, rabiscos, orações orações orações. Quem quer a ‘beleza’ quando se deseja escrever e libertar palavras da ‘poesia’? Coloquei a beleza em meu colo, e provei-a e achei-a amarga. Libertar a palavra, você me entende? Você me entende? Você me entende realmente?
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